Murro no Força Bruta

65ª Edição do Força Bruta

Emissão: sexta-feira, 3 de abril de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Murro, banda portuguesa de hardcore, d-beat e noise

No dia 3 de abril de 2026, às 20:00, o Força Bruta entra em direto para uma emissão que contará com a participação dos Murro, banda de hardcore, d-beat e noise de Setúbal, numa conversa que deverá passar pelo percurso do coletivo, pelas mudanças de formação, pela discografia construída ao longo dos anos e pela fase mais recente da banda.

Onde ouvir e ver a emissão em direto

6ª-feira, 3 de abril de 2026, das 20:00 às 23:00

Sobre os Murro, banda de Hardcore, D-beat e Noise

Os Murro começaram a ganhar forma por volta de 2012, quando Pedro Silva, também identificado como Macaco Rápido e Hugo Botelho, conhecido como Hugo Cão, arrancaram com o projeto em formato de duo. Nessa fase inicial, Pedro assumia guitarra e voz, enquanto Hugo estava na bateria, antes de a banda entrar numa etapa mais maquinal, feita de baterias programadas, samplers, loops e uma construção em estúdio muito caseira.

Dessa primeira fase nasceu Foda-se, trabalho começado em 2016 e concluído em 2017, que a banda passou a olhar como o seu primeiro disco. Feito com meios próprios, gravado de forma doméstica e pensado mais como objeto de criação do que como banda pronta para palco, esse registo acabou por fixar várias ideias que mais tarde voltariam transformadas. Foi também aí que se consolidou a troca de funções que viria a marcar a identidade futura dos Murro, com Hugo Cão a assumir a voz e Pedro Silva a fixar-se na guitarra.

Apesar de terem tentado levar essa fase mais maquinal para concerto, os Murro perceberam depressa que o caminho que procuravam era outro. A banda queria uma linguagem mais física, mais analógica e mais próxima da tensão de palco. A partir daí começou a procura por uma formação estável, num processo com várias entradas e saídas até se chegar a uma estrutura mais definida.

Os Murro antes de "Misantropo"

O passo seguinte foi decisivo. Com a entrada de Tiago Cê para a bateria e Valter Costa para o baixo, os Murro ganharam a formação que deu outra robustez à música e permitiu à banda trabalhar de forma mais coletiva. Esse período foi importante não só pela estabilização do alinhamento humano, mas também porque várias composições antigas ganharam nova vida, nova força rítmica e outra dimensão em ensaio e em palco.

Capa da Demo 2020, dos Murro, banda de Hardcore portuguesaCapa da Demo 2020 dos Murro.

Em 12 de junho de 2020, a banda editou a Demo 2020, com "Homem do Talho" e "Autoflésh". Esse lançamento funciona como uma ponte clara entre o trabalho embrionário e o que viria a ser a afirmação dos Murro em disco. Ao mesmo tempo, a banda continuava a trabalhar numa lógica de autonomia, tratando gravações, vídeos, imagens e vários aspetos práticos da sua atividade com meios próprios.

Nesse mesmo ciclo surgiu também o convite de Rick Chain para a banda entrar na Raging Planet, mudança importante para um projeto que até então tinha feito praticamente tudo a pulso. A entrada nessa estrutura não alterou a identidade dos Murro, mas deu outro alcance ao trabalho que a banda já vinha a construir e coincidiu com o arranque de uma nova etapa em estúdio.

"Misantropo" e a afirmação dos Murro

Lançado a 22 de outubro de 2021, Misantropo foi o disco que colocou os Murro numa posição de maior visibilidade e ajudou a fixar o som da banda numa forma mais reconhecível. O álbum foi gravado a partir de captações feitas pelo próprio coletivo e depois misturado e masterizado por Miguel Tereso. Visualmente, o trabalho contou com grafismo de João Pimenta, enquanto a capa usou uma fotografia tirada por Pedro a André, filho de uma amiga sua.

Capa do disco Misantropo dos MurroCapa do disco Misantropo dos Murro.

Mais do que um simples alinhamento de temas, Misantropo mostrou uma banda que já sabia o que queria dizer e como o queria dizer. Musicalmente, o disco combina peso, urgência e abrasão, aproximando-se do hardcore, do d-beat e do noise. Liricamente, reforçou uma linha que já vinha de trás, centrada em injustiças laborais, guerra, desigualdade social, classe operária e crítica ao individualismo.

Essa frente lírica nunca aparece desligada da experiência concreta da banda. Os Murro falam de trabalho, fadiga, exploração e vida quotidiana a partir de dentro, o que ajuda a perceber porque é que temas como "Fábrica" ou "Galinhas" têm tanto peso no percurso da banda. O primeiro liga-se diretamente ao ambiente de fábrica e ao desgaste dos horários contínuos, enquanto o segundo atravessa uma geografia social próxima da banda e permaneceu como um dos temas mais fortes no repertório.

Outro traço central em Misantropo foi a escolha do português como língua natural e definitiva da banda. Não se trata apenas de uma opção estética. Nos Murro, cantar em português serve a frontalidade da mensagem, torna a dicção política mais direta e aproxima as letras de uma fala sem filtros, sem o recuo de uma formulação mais abstrata.

Foi também nesta fase que surgiu o vídeo de "Estrábico", feito pela própria banda. Esse lado autodidata nunca desapareceu do processo dos Murro. Mesmo quando entram colaboradores externos para mistura, masterização ou grafismo, a lógica mantém-se: fazer o máximo possível por dentro e só abrir o processo quando isso ajuda verdadeiramente a empurrar a música para o sítio certo.

Os Murro entre a mudança de formação e um novo álbum

Depois de Misantropo, a banda voltou a mexer. Tiago Cê e Valter Costa saíram, e os Murro passaram por uma fase de redefinição interna. Nesse processo entrou Gonçalo Mota para a bateria e a banda chegou a funcionar como power trio, solução assumida por necessidade, mas que acabou por deixar marcas claras na música nova.

Esse período tornou o som mais rápido, mais cru e mais agressivo. A ausência de baixo em palco obrigou a repensar a execução e a dinâmica das canções, mas também empurrou a banda para uma abordagem mais direta. Em 6 de fevereiro de 2024, os Murro mostraram essa nova fase com o single "Braille dos Porcos", uma faixa que já apontava para um disco mais tenso e mais musculado.

Capa do álbum dos Murro - Dissertações de um cidadão comum desesperado, prestes a cometer um atentadoCapa do álbum "Dissertações de um cidadão comum desesperado, prestes a cometer um atentado".

O resultado foi Dissertações de um cidadão comum desesperado, prestes a cometer um atentado, lançado a 11 de novembro de 2024. O título longo e provocador enquadra um disco mais veloz e mais incisivo, sem abandonar a base reivindicativa da banda. Com onze temas, o álbum aprofunda a urgência do ciclo anterior e acentua o peso do d-beat, das guitarras mais destrutivas e de uma linguagem ainda mais seca.

Na prática, o disco mostra uma banda em mutação, mas sem perder o seu núcleo. Há continuidade nas preocupações sociais, na crítica ao estado do mundo e no olhar sobre a violência política e económica, mas há também uma diferença nítida na forma. Se Misantropo consolidava uma identidade, Dissertações de um cidadão comum desesperado, prestes a cometer um atentado apresenta Murro já noutra velocidade, com menos gordura e mais embate.

Também aqui o processo de gravação foi exigente e repartido por fases. O trabalho prolongou-se durante cerca de dois anos, atravessando mudanças de formação e adaptações internas. As baterias foram gravadas numa fase inicial, as guitarras seguiram-se mais tarde, e os baixos acabaram por ser registados por Pedro Silva num momento em que a banda não tinha baixista fixo. A mistura e a masterização passaram por Fernando Matias, enquanto o trabalho visual voltou a contar com João Pimenta, também associado a Galo Negro.

A capa do álbum carrega ainda outra camada simbólica. A imagem centra-se em Bravo, cão de Gonçalo, já falecido, num gesto de homenagem que se liga a uma sensibilidade que a banda nunca escondeu. Ao longo do repertório dos Murro aparecem animais, nomes de bichos e figuras transformadas em personagens, não como ornamento, mas como parte de um universo que combina ironia, crítica e observação da vida real.

A fase atual dos Murro

Depois do lançamento do disco, os Murro voltaram ao formato de quarteto com a entrada de Mário Pinto, também referido como Barba Negra, para o baixo. A formação mais recente junta assim Hugo Cão na voz, Macaco Rápido na guitarra, Gonçalo Mota na bateria e Mário Pinto no baixo, recuperando um equilíbrio instrumental que a própria banda considera essencial para a profundidade do seu som.

Essa fase atual não representa uma rutura com o passado, mas antes um regresso a uma base que os Murro sempre reconheceram como a sua forma mais forte. O baixo volta a ganhar espaço, as harmonias de guitarra respiram melhor e a banda entra numa etapa em que consegue juntar a violência mais imediata do trio com a solidez de uma formação completa.

Ao longo de mais de uma década, os Murro foram mudando de forma sem perder o centro. Da experiência caseira e maquinal do arranque à consolidação com Misantropo, da tensão do power trio à afirmação de Dissertações de um cidadão comum desesperado, prestes a cometer um atentado, a banda foi sempre empurrando o mesmo princípio: fazer música intensa, frontal e enraizada numa leitura crítica do mundo. É esse trajeto que estará em foco na emissão de 3 de abril, no Força Bruta, numa conversa que ajuda a perceber não só a história dos Murro, mas também a razão de continuarem a soar como uma das bandas mais vincadas do seu terreno.

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