Bastardos do Cardeal: história da banda punk de Viseu

77ª Edição do Força Bruta

Emissão: sexta-feira, 17 de julho de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Bastardos do Cardeal no Fora de Rebanho, em Viseu, em outubro de 2025

Os Bastardos do Cardeal são uma banda de Viseu ligada ao punk e ao pós-punk português, nascida de uma urgência marginal, de ensaios improvisados, de uma ética DIY levada ao limite e de uma história que atravessa os anos 80, a memória subterrânea nacional e um regresso discográfico já em plena atualidade.

No dia 17 de julho de 2026, às 20:00, os Bastardos do Cardeal marcam presença no Força Bruta em direto, numa emissão centrada na história da banda, na cena de Viseu, nas primeiras formações, na passagem por "Divergências", nos concertos que ficaram ligados à sua memória e na fase atual, marcada pelo álbum homónimo de 2025.

Sobre os Bastardos do Cardeal, banda de punk e pós-punk

A história dos Bastardos do Cardeal começa em Viseu, num contexto em que falar de punk rock na cidade é quase falar da própria banda. A génese remonta a 1980, ano em que António Luís Vaz Patto chega a Viseu para fazer o 11.º ano e encontra um meio musical dominado por bandas de baile, públicos pouco disponíveis para a rutura e uma juventude repartida entre friques, "queques" e rotinas culturais fechadas sobre si mesmas.

O ponto de partida simbólico surge depois de um concerto dos UHF no pavilhão A da Feira de S. Mateus, ainda na fase de "Cavalos de Corrida" e "Jorge Morreu". No dia seguinte, Vaz Patto, Victor Vicente e Zé Pedro Athayde decidem formar uma banda. Vaz Patto fica com o baixo e a voz, Victor Vicente com a bateria e Zé Pedro Athayde com a guitarra, o único instrumento já disponível.

Antes de chegarem ao nome definitivo, passaram por várias designações. Primeiro Humanoid Kids, depois Escola Estúpida, PIdE, de Portas Infectas da Eternidade, Honra Perdida e, finalmente, Bastardos do Cardeal. A sucessão de nomes ajuda a perceber uma fase inicial instável, adolescente e provocatória, mas também a procura de uma linguagem própria num ambiente onde a diferença era imediatamente notada.

A primeira formação em Viseu

Os primeiros ensaios aconteceram no quarto de Zé Pedro Athayde. A guitarra era ligada diretamente ao amplificador de um gira-discos, Vaz Patto encostava uma acústica à madeira da cama para aumentar a ressonância e Victor Vicente batia com baquetas feitas na escola em almofadas e caixas de cartão. A precariedade dos meios não era um detalhe lateral. Era parte da forma como a banda começou a existir.

Bastardos do Cardeal em 1985Bastardos do Cardeal em 1985.

As influências dessa pré-história passavam por Pistols, Sid Vicious, Ramones, X-Ray Spex, Wire, Clash, Dead Kennedys, Anti-Nowhere League, Anti-Pasti, Plasmatics e Siouxsie & the Banshees. Ainda assim, os Bastardos do Cardeal não surgem como cópia de uma cartilha importada. O que os torna relevantes é a forma como esse choque punk foi transplantado para Viseu, uma cidade onde a elite musical dos bailaricos não tinha espaço para aqueles putos chamados punks.

Os primeiros temas eram diretos, juvenis e corrosivos. Falavam de ódio à escola, às aulas e ao ensino, de destruição, caos e atmosferas sombrias. "Haverá Paz no Túmulo" tornou-se um dos temas mais conhecidos no pequeno universo inicial da banda e marcou uma viragem, com o primeiro solo de Athayde e os primeiros grafitis espalhados pelas paredes da cidade.

Por volta de 1982/83, os Bastardos do Cardeal fazem o primeiro concerto num festival promovido pela 7UP/RDP. Vaz Patto tinha comprado o primeiro baixo uma semana antes e Victor Vicente já tinha experimentado tocar bateria no FAOJ. A banda apresentou temas originais, algo pouco habitual no seu meio, e saiu dali com uma ligação ao punk nacional que a acompanharia nas formações seguintes.

José Valor e a segunda fase dos Bastardos do Cardeal

Bastardos do Cardeal em 1985José Valor em 2003.

A saída de Zé Pedro Athayde para Lisboa, onde viria a fundar os Dead Dream Factory, deixou a banda sem guitarrista e sem local de ensaio. Por essa altura, entra José Valor, também conhecido como Tupperware pela forma como construía aparelhos eletrónicos a partir de caixas da marca. Primeiro ligado ao som, Valor acaba por assumir a guitarra com uma viola portuguesa eletrificada à sua maneira.

Esta segunda fase é decisiva para o som da banda. Os Bastardos do Cardeal passam a contar com um baixo, uma viola amplificada, mini amplificadores artesanais, colunas de carros e uma bateria feita pelos próprios a partir de uma placa de acrílico. Depois de uma breve passagem pela casa de Valor, os ensaios mudam para o vão das escadas de acesso ao Cine Clube de Viseu, um cubículo cedido pela direção onde era preciso interromper os ensaios para respirar.

Mais do que uma solução de recurso, essa fase reforçou a marca DIY da banda. Os Bastardos do Cardeal não estavam apenas a tocar com poucos meios. Estavam a transformar a falta de meios numa linguagem. A velha guitarra portuguesa eletrificada de José Valor foi essencial para afastar a banda de uma adolescência musical prolongada e abrir caminho a um som mais próprio, estranho e áspero, entre o punk, o pós-punk e uma experimentação rudimentar.

De Viseu para fora: Porto, Aveiro e Coimbra

O primeiro concerto fora de Viseu aconteceu no Porto, nos chamados Concertos da Cruz Vermelha, organizados por Rui Sousa e Jorge Romão. Os Bastardos do Cardeal tocaram com Ratus Urbanus, Culto da Ira e Croix Sainte, num contexto que os aproximou de uma rede punk e alternativa mais ampla.

Em julho de 1985, os Bastardos do Cardeal atuam no Festival Agitarte, em Aveiro. A deslocação de automotora, os três dias de campismo, a cantina da Câmara Municipal e a quantidade de gente que foi entrando como "membro" da banda fazem parte da mitologia interna desse episódio. No palco, participaram também Amândio Barbosa, dos Guru Paraplégico e os Iconoclastas, e Luís Morgadinho.

Na semana seguinte, a banda chega a Coimbra para a primeira parte dos Extrema Unção, no teatro Sousa Bastos, com os Grito Final também no cartaz. É nessa noite que Luís Morgadinho é formalmente convidado para integrar os Bastardos do Cardeal como vocalista.

A entrada de Morgadinho abre uma terceira fase. A banda ganha um performer forte, Vaz Patto fica mais livre para se concentrar no baixo e na secção rítmica, e a guitarra de José Valor ganha outro espaço. Os ensaios tornam-se mais regulares, entre Viseu, no Juventus, e Lisboa, na Senófila, sinal de uma banda já com circulação para lá do circuito local.

Os Bastardos do Cardeal e a compilação "Divergências"

Compilação Divergências, editado em maio de 1986Compilação Divergências, 1986.

A passagem pelo Agitarte 85 teve outra consequência importante. A banda foi convidada por João Peste a integrar a compilação "Divergências", da Ama Romanta, lançada em 1986. O tema escolhido foi "Aranha", durante muito tempo o principal registo discográfico associado aos Bastardos do Cardeal.

A gravação aconteceu no estúdio Tcha Tcha Tcha, em Campo de Ourique, Lisboa. A sessão foi curta, marcada pela espera por uma guitarra para José Valor e pela afinação dos balões usados no tema. Morgadinho, que ainda não tinha ensaiado o suficiente para assumir a voz principal nesta gravação, participou com balões e coros, enquanto Vaz Patto ficou com a voz. O próprio relato memorialístico da banda sublinha que aquela versão não representava totalmente os Bastardos do Cardeal dessa altura.

A importância de "Aranha" está no facto de ter fixado em disco uma banda que vivia sobretudo de ensaios, cassetes, concertos, circulação oral e memória de cena. Mesmo com todas as tensões posteriores em torno das bobines, das reedições e da relação com João Peste, a presença em "Divergências" tornou-se um marco incontornável na história da banda e na sua inscrição no punk português dos anos 80.

Palco, conflito e anti-estrelato

A terceira fase dos Bastardos do Cardeal foi uma época de excessos, anti-estrelato e personalidades fortes. A banda recusava a lógica de aprender os instrumentos de forma convencional, mas procurava conhecê-los à sua maneira, colocando neles aspetos das diferentes personalidades dos seus elementos. Essa tensão alimentava o som, a presença em palco e a instabilidade interna.

Por volta de 1986/87, o meio musical de Viseu já mostrava sinais de mudança. As antigas divisões entre friques e "queques" estavam diluídas e apareciam jovens de calças rasgadas e cabelos em pé que já ouviam outra música. Ao mesmo tempo, surgiam bandas locais com alguma representatividade, como Marianokalate e as Soltadeiras de Água, num cenário ainda dominado pela memória dos bailes, mas já menos fechado do que no início da década.

A primeira grande cisão dessa fase nasce do cansaço, do stress e das personalidades em choque. Um tema interventivo, escrito e ensaiado na tasca Isabelinha e depois terminado de madrugada na Rua Direita com manifestações populares e intervenção policial, foi tocado na discoteca Day After, numa noite em que a banda fez a primeira parte dos GNR. Em palco, Morgadinho e José Valor chegaram a vias de facto. Nessa mesma noite, Valor abandona a banda, assim como Duarte, segundo guitarrista que estava na formação há poucas semanas e cuja breve passagem incluiu uma atuação no Rock Rendez Vous.

Depois dessa rutura, João Prats teve uma passagem muito breve, limitada a dois ou três ensaios. Os Bastardos do Cardeal perderam a sala de ensaios e passaram algum tempo a trabalhar em Lisboa com Alfredo Baptista na guitarra. Pouco depois, a atividade mudou para Coimbra, onde a banda alugou uma garagem.

A saída de José Valor não seria definitiva. O guitarrista voltaria a integrar a banda numa fase posterior e, em 1989, os Bastardos do Cardeal participaram nas celebrações do 9.º aniversário do Rock Rendez Vous. Nessa fase, a banda mantinha uma geografia de trabalho invulgar, com ensaios repartidos entre Viseu, Coimbra e Lisboa, conforme o orçamento permitia pagar salas, deslocações e o transporte dos elementos que permaneciam na Beira.

O fim da primeira vida dos Bastardos do Cardeal

Politicamente, os Bastardos do Cardeal nunca se acomodaram a uma ideologia única. O que aparece no seu percurso é uma recusa dos compadrios, das prepotências, da corrupção e dos circuitos de autopromoção cultural. A banda cresceu durante os anos da governação de Cavaco Silva e esse contexto alimentou uma escrita e uma atitude de denúncia, mais interessada em expor o país pequeno e os seus poderes locais do que em aderir a uma cartilha partidária.

O fim da primeira vida da banda não surge como uma data limpa. Algumas referências situam o encerramento da fase inicial em 1989, outras prolongam a atividade até 1990. O relato de Vaz Patto resume melhor essa ambiguidade ao afirmar que os Bastardos do Cardeal acabaram quando chegou a altura. Essa ausência de fecho formal é coerente com uma banda cuja história sempre se fez por fricção, desvio e sobrevivência fora dos registos oficiais.

Depois dessa primeira vida dos Bastardos do Cardeal, José Valor continuou ligado ao underground viseense através do Centro de Pesquisas Ruído Branco, dos Lucretia Divina, de Fonóplia e, mais tarde, dos Major Alvega, onde voltou a cruzar caminho com Vaz Patto. Essa continuidade ajuda a perceber como a história da banda se prolongou noutras experiências musicais, mesmo durante os anos de silêncio.

Discografia, repertório e memória de arquivo

Durante muito tempo, a memória pública dos Bastardos do Cardeal ficou quase reduzida a "Aranha", incluída em "Divergências". No entanto, o repertório da banda era muito mais amplo e circulou durante décadas em cassetes, gravações de ensaios, registos de concertos e materiais recuperados posteriormente por arquivos ligados à cena viseense.

Capa Bastardos do Cardeal no Rock Rendez Vous, 1989Bastardos do Cardeal, Rock Rendez Vous, 1989

Entre os títulos associados ao período histórico surgem "Haverá Paz no Túmulo", "Presságio", "Internamento", "Nomes", "Guerra Civil", "Proxenetas na TV", "Casa Acabada", "Agência Funerária", "Frasco de Cola", "Verme", "Quem Dá Um Tiro No Presidente", "Senhor", "Gentil Burguês", "Caixote do Lixo", "Arma do Morto", "Colinas do Desconsolo" e "Explosões na Rua". A lista mostra uma escrita atravessada por morte, abjeção urbana, crítica político-social, sátira cultural e uma frontalidade que nunca procurou ser confortável.

Os registos de 1984, as gravações do Agitarte em Aveiro, as passagens pelo Rock Rendez Vous em 1987 e 1989 e as cassetes com concertos em Viseu, Coimbra e Lisboa ajudam a reconstruir uma obra que existiu muito para além da edição oficial. A história discográfica dos Bastardos do Cardeal é, por isso, inseparável do trabalho de preservação, recuperação e reescuta de materiais que durante anos viveram à margem.

O regresso dos Bastardos do Cardeal

Capa do EP Nomes, de 2023Em 2023, a banda edita o EP Nomes.

O regresso público dos Bastardos do Cardeal tornou-se visível a partir de 2022 e 2023. A formação ativa passou a juntar Victor Vicente, A. Luís Vaz Patto e Ricardo Ramos, guitarrista ligado aos The Dirty Coal Train e Tiger Picnic. Nos concertos e gravações, Ricardo Ramos assume a guitarra num tributo à memória de José Valor, recuperando o lugar central do instrumento na formação histórica em trio.

Em 2023, a banda edita "Nomes", com temas como "No Dia da Minha Morte", "Proxenetas na TV", "Guerra Civil", "Nomes", "Tudo em Lava", "Definho Nesta Selva", "Vão Para Baixo" e "A Aranha (Ao vivo 2023)". O lançamento marca uma reativação do cancioneiro histórico, agora apresentado com nova energia e enquadrado pela fase contemporânea da banda.

Capa do álbum primeiro longa duração de Bastardos do Cardeal, de 20251º LP Bastardos do Cardeal, editado em 2025

Em 2025, os Bastardos do Cardeal editam finalmente o primeiro álbum homónimo de longa duração, apresentado a 25 de outubro num concerto no Fora de Rebanho, em Viseu. Gravado no Barreiro com Nick Suave, ligado aos Act Ups e Nicotines Orchestra, o disco recupera o repertório da formação em trio com Vaz Patto, Victor Vicente e José Valor.

O álbum dá novas roupagens a temas de punk e pós-punk escritos em 1984 e durante décadas passados de mão em mão em cópias de cassetes caseiras e gravações de concertos. Entre eles encontram-se "Casa Acabada", "Presságio" e "Quem Dá Um Tiro No Presidente?". A estes juntam-se três composições recentes criadas já com Ricardo Ramos: "Porco", "O Grande Buffet" e "Medo".

Este primeiro longa-duração tem uma relevância particular. Depois de décadas em que a banda existiu sobretudo através de cassetes, memórias, concertos e uma faixa de compilação, o álbum dá corpo a uma história que nunca coube numa discografia convencional. Não apaga a origem precária dos Bastardos do Cardeal, mas permite ouvi-la com uma nova nitidez.

Porque aparecem no Força Bruta

A presença dos Bastardos do Cardeal no Força Bruta em direto faz sentido porque a história da banda cruza vários temas essenciais da música alternativa portuguesa: a criação fora dos centros habituais, a cena punk de Viseu, a ética DIY, a relação entre punk e pós-punk, a importância das cassetes e dos arquivos, as mudanças de formação, a tensão entre memória e presente e o regresso de uma banda de culto com um primeiro álbum de longa duração.

A emissão de 17 de julho de 2026 será uma oportunidade para enquadrar esse percurso de forma cronológica e editorial, da génese em 1980 ao primeiro concerto por volta de 1982/83, da entrada de José Valor à fase com Luís Morgadinho, de "Divergências" aos registos recuperados, do Rock Rendez Vous ao álbum homónimo de 2025. O foco está nos Bastardos do Cardeal, na sua história e na razão pela qual continuam a ocupar um lugar singular no punk e pós-punk português.

Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto

6ª feira, das 20h às 23h

Partilha esta página!