Grievance: projeto de Black Metal e Koraxid no Força Bruta
84ª Edição do Força Bruta

Grievance é um projeto de black metal das Caldas da Rainha fundado em 1997 por Koraxid e Azarath. A sua história inclui uma primeira demo gravada diretamente para cassete, uma fase experimental com trompete, vários anos de atividade condicionada pela distância entre Portugal e Espanha e desde 2011, uma nova etapa como projeto a solo de Koraxid. Em palco, porém, Grievance apresenta-se atualmente como quinteto, com Koraxid acompanhado por quatro músicos de sessão. Em 2026, o projeto conta com cinco álbuns de estúdio e um catálogo que inclui também demos, um single, um split, compilações, um miniálbum, gravações de concerto e edições de tiragem muito limitada.
Na sexta-feira, 18 de setembro de 2026, Diogo Trindade, conhecido como Koraxid, fundador e responsável por Grievance, é o convidado do Força Bruta. A conversa em direto deverá percorrer a história iniciada em 1997, desde a passagem de duo a projeto a solo até às diferentes formações de palco. Pelo caminho, haverá também espaço para abordar o método de composição de Koraxid, o quinto álbum Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, o recém-editado Occult Encryptions e os planos para voltar a criar música nova.
Sobre Grievance, projeto de black metal português
Para perceber como Grievance funciona atualmente, há uma distinção essencial a fazer. Desde 2011, o trabalho de estúdio é um projeto a solo de Koraxid, que compõe, toca os instrumentos, grava as vozes e assegura grande parte da produção. Nos concertos, por sua vez, apresenta-se com uma formação de cinco elementos, acompanhado por quatro músicos de sessão.
Essa estrutura só se compreende olhando para o percurso anterior. Entre 1997 e 2011, Grievance passou por diferentes configurações: começou como duo, transformou-se numa banda experimental com quatro elementos e mais tarde, regressou ao black metal através de uma formação dividida entre Portugal e Espanha. Só depois dessa sequência passou definitivamente para a direção de Koraxid em estúdio.
Ao longo desse processo, o Axe Farm Studios, nas Caldas da Rainha, tornou-se o centro da atividade. Grande parte da discografia foi ali gravada e foi também nesse espaço que Koraxid desenvolveu as competências de gravação e produção que lhe permitiram trabalhar sem depender de uma formação fixa.
Antes de Grievance: Koraxid e Tenebrous Dominancy
Antes de existir Grievance, a ligação de Koraxid à música já vinha de trás. Diogo Trindade nasceu nas Caldas da Rainha a 8 de novembro de 1979 e cresceu numa zona rural ligada à Quinta da Machada. O irmão mais velho, Orlando Trindade, teve um papel importante nessa formação musical inicial, apresentando-lhe bandas como Iron Maiden e Black Sabbath, mas também The Doors e Pink Floyd.
Mais tarde, a descoberta de Chaos A.D., dos Sepultura, abriu-lhe a porta para música mais extrema. Seguiram-se bandas como Dismember, Sinister, Obituary e Cannibal Corpse. Durante a adolescência chegou então o black metal, com referências que incluíam Bathory, Emperor, Immortal, Enslaved, Absu, Abigor, Mayhem, Burzum e Dissection.
Foi nesse período que Koraxid começou a tocar bateria, por volta dos 15 anos. O espaço onde ensaiava, na Quinta da Machada, acabaria posteriormente por evoluir para o Axe Farm Studios. O próprio nome do estúdio nasce da tradução para inglês de "Quinta da Machada".
A primeira banda diretamente ligada à futura criação de Grievance surgiu pouco depois. Tenebrous Dominancy esteve ativa entre outubro de 1996 e agosto de 1997.
A formação incluía Pedro Simão na guitarra rítmica, Orlando Trindade na guitarra solo, Gornoth na voz e letras, Koraxid na bateria e Azarath no baixo. Durante esse período foram criadas cerca de sete composições, embora nunca tenha chegado a existir uma gravação profissional de estúdio. Ficaram apenas registos de ensaios feitos em cassete.
Além disso, Tenebrous Dominancy realizou apenas um concerto conhecido, em julho de 1997, perto das Caldas da Rainha. Nessa altura, contudo, Koraxid e Azarath já tinham começado outro projeto.
Grievance nasce em maio de 1997
Koraxid e Azarath fundaram Grievance em maio de 1997, com uma direção claramente orientada para o black metal.
O nome "Grievance" foi retirado por Koraxid de uma passagem da letra de "The Burning Shadows of Silence", dos Emperor, tema incluído no álbum In the Nightside Eclipse. Ainda durante o verão desse ano, Azarath desenhou o logótipo.
A ligação aos Emperor, no entanto, ia muito além do nome. In the Nightside Eclipse foi um dos discos determinantes na aproximação de Koraxid à segunda vaga do black metal. Ao mesmo tempo, Bathory, através do trabalho de Quorthon, tornou-se outra referência importante, sobretudo pela intensidade emocional das composições e não apenas pela agressividade ou produção.
Por Entre A Escuridão Outonal: a primeira demo de Grievance
Koraxid e Azarath na fase inicial de Grievance em 1997.
Poucos meses depois da fundação, em julho de 1997, Grievance registou a primeira demo, Por Entre A Escuridão Outonal.
O processo foi rudimentar. Primeiro, a base nasceu de um ensaio gravado diretamente para cassete. Depois, a voz foi acrescentada separadamente. Koraxid assumiu bateria, percussão e voz, enquanto Azarath tocou guitarra e aparece também creditado com teclados nos registos históricos da gravação.
A demo contém cinco temas e permaneceu durante muitos anos como o principal documento da primeira fase de Grievance. Só muito mais tarde, em 2024, recebeu uma edição física oficial através de Antologia 1997-2024.
1998 a 2000: a fase experimental com trompete
Grievance durante a fase experimental entre 1998 e 2000.
Depois da demo, Grievance não seguiu imediatamente pelo mesmo caminho. Pelo contrário, entre aproximadamente 1998 e 2000, o projeto atravessou uma fase experimental com quatro elementos.
Koraxid manteve-se na bateria, enquanto Azarath passou para o baixo e a voz. Entretanto, Marco Tomé entrou para a guitarra e Sérgio Pina acrescentou trompete.
Com esta formação, a música deixou de estar limitada ao black metal e começou a cruzar diferentes linguagens metálicas e experimentais. O uso do trompete tornou-se, assim, um dos elementos mais invulgares de toda a história de Grievance.
Esta formação chegou a realizar concertos, mas não deixou um álbum ou uma demo oficial. Existem fotografias da banda de 1998 e 1999 e sobreviveram gravações de ensaios, embora não exista uma discografia formal desta fase.
Em 2000, porém, Azarath mudou-se para o estrangeiro. A distância começou então a dificultar uma atividade regular e Grievance passou vários anos praticamente reduzido a encontros ocasionais e sessões informais.
O regresso de Grievance entre Portugal e Espanha
Koraxid, Azarath e Enjendro durante a fase The New Millenium Sessions de Grievance.
Depois desse período de menor atividade, o projeto regressou de forma clara ao black metal com The New Millenium Sessions.
Nessa altura, Koraxid estava nas Caldas da Rainha, Azarath vivia em Algeciras, no sul de Espanha, e Enjendro juntou-se no baixo. Como consequência dessa divisão geográfica, as gravações acabariam por ser feitas em dois países.
As duas faixas foram registadas em sessões diferentes entre dezembro de 2006 e setembro de 2007. Uma decorreu em Algeciras e outra no Axe Farm Studios.
Koraxid tocou bateria, Azarath assumiu guitarra e voz e Enjendro tocou baixo. Depois dos anos experimentais, estas gravações documentam, portanto, o regresso de Grievance ao black metal.
A distância entre Portugal e Espanha continuou, ainda assim, a limitar ensaios, gravações e concertos. Por isso, o projeto não voltou a funcionar de forma contínua.
2011: Grievance torna-se o projeto a solo de Koraxid
Foi nesse contexto que, em 2011, Koraxid e Azarath concluíram que a distância entre os dois países e as restantes responsabilidades de ambos tornavam pouco prático continuar a trabalhar como anteriormente.
A decisão foi tomada de forma amigável. Koraxid continuou com Grievance e Azarath afastou-se da atividade regular, embora tenha mantido contacto com o projeto e regressado posteriormente como convidado.
Entretanto, Koraxid já tinha aprendido guitarra e baixo e desenvolvido experiência de gravação, mistura e produção. Dessa forma, passou a conseguir assumir sozinho todo o processo de estúdio.
Desde então, Grievance é um projeto a solo de Koraxid em estúdio. A existência de uma formação de cinco elementos nos concertos não altera essa estrutura, já que os restantes músicos são membros de sessão para a atividade em palco.
Retorno: o primeiro álbum de Grievance
Capa de 'Retorno', primeiro álbum de Grievance
O primeiro resultado desta nova configuração foi Retorno, o primeiro álbum de estúdio de Grievance.
As gravações decorreram no Axe Farm Studios entre outubro de 2011 e fevereiro de 2012. Depois de uma primeira mistura realizada em abril de 2012, o material voltou a ser trabalhado entre junho e julho de 2013.
A edição digital independente surgiu em julho de 2013. A edição física chegou a 15 de fevereiro de 2014 através da Nyarlathotep Records.
O álbum inclui onze temas e foi inteiramente interpretado por Koraxid. Nas letras surgem antepassados, espiritualidade, ocultismo, paisagem portuguesa, conflito interior e memória histórica, assuntos que voltariam a aparecer em diferentes momentos da discografia.
A componente visual também foi trabalhada fora de estúdio. A sessão fotográfica usada no álbum, incluindo a capa, foi realizada por Tiago da Cruz numa noite de lua cheia durante o verão de 2012, na zona da Praia d'El Rey e de Óbidos.
Perante o Céu Infernal e Pilar, Pedra e Faca
Já nessa fase surgiu outro registo com uma história de criação própria. "Perante o Céu Infernal" nasceu de uma sessão de improvisação de Koraxid no estúdio de som da ESAD, nas Caldas da Rainha, onde os instrumentos foram registados separadamente.
Só mais tarde, no final de 2015, Koraxid recuperou a gravação, reviu a estrutura e acrescentou letra, voz e uma introdução de sintetizador. Em janeiro de 2016, remisturou e masterizou o tema no Axe Farm Studios, lançando-o como single autónomo.
Entretanto, o segundo álbum já estava em construção. Pilar, Pedra e Faca começou a ser gravado em setembro de 2013 e só ficou concluído em setembro de 2016.
Durante esses três anos, Koraxid esteve envolvido noutros projetos, trabalhou em gravação e produção para diferentes músicos e participou na criação da sala de concertos Stronghold, nas Caldas da Rainha. Ao mesmo tempo, questões pessoais também contribuíram para prolongar o processo.
Pilar, Pedra e Faca foi finalmente lançado digitalmente a 24 de outubro de 2016. A edição física em CD chegaria a 26 de janeiro de 2018 através da War Productions, Blackwood Productions e Base Record Production, numa tiragem de 500 exemplares.
A edição digital de 2016 tem nove faixas e cerca de 40 minutos. Entre as participações, Tiago da Neta escreveu e interpretou "Subliminar Voz Interior" e tocou guitarra portuguesa em diferentes temas. Joaquim "Vulture" Moreira, por sua vez, gravou baixo em duas composições.
Koraxid não utilizou a guitarra portuguesa segundo a técnica tradicional do fado. Em vez disso, procurou explorar o seu timbre, aplicando padrões de palhetada mais próximos da forma como trabalhava as guitarras no metal.
Foi também durante estes anos que outros projetos ocuparam parte do tempo de Koraxid. Entre eles esteve Medo, no qual assumiu os instrumentos, enquanto Hellraiser ficou ligado às vozes. Além disso, Koraxid teve uma passagem por Flagellum Dei no baixo.
Português, guitarra portuguesa e referências do sul da Europa
Koraxid na fase de Pilar, Pedra e Faca de Grievance
A presença da guitarra portuguesa em Pilar, Pedra e Faca não foi pensada como uma tentativa de misturar diretamente black metal e fado. O objetivo era outro.
Koraxid procurava um timbre diferente e elementos musicais que lhe fossem próximos. É também nesse sentido que surge a referência aos Madredeus. A influência não está em copiar a instrumentação ou o estilo da banda, mas na forma como emoção, espaço e origem geográfica entram na música.
Da mesma forma, Koraxid considera que bandas gregas ou nórdicas desenvolveram características reconhecíveis relacionadas com os locais onde surgiram. Em Grievance, procura explorar aquilo que pode fazer um projeto português ou ibérico soar de forma diferente, sem transformar essa ideia numa posição nacionalista.
O português participa diretamente nesse processo. Koraxid valoriza a fonética e os maneirismos da língua, embora reconheça que a métrica portuguesa pode ser mais difícil de encaixar em determinadas estruturas musicais do que o inglês.
Por isso, os álbuns de Grievance usam principalmente português, já que é a língua em que Koraxid prefere escrever e cantar. Ainda assim, não existe uma regra que impeça a utilização do inglês.
2018: Grievance regressa aos concertos como quinteto
Depois de vários anos concentrado sobretudo no trabalho de estúdio, Koraxid decidiu, em 2018, voltar a levar Grievance aos palcos. Para isso, montou uma formação específica para os concertos.
Os ensaios começaram em junho com Koraxid na voz, Mortuum na bateria, War Faust no baixo, Urutu na guitarra rítmica e WrathWulf na guitarra solo.
Pouco depois, uma das primeiras atuações documentadas desta nova fase aconteceu a 7 de julho de 2018, na A.C.D.R. Brunheiras, em Vila Nova de Milfontes.
A formação sofreria uma primeira alteração ainda nesse verão. No final de agosto de 2018, WrathWulf saiu e foi substituído por Dom Dracul.
A partir daí, Grievance passou a apresentar-se como quinteto em palco, com Koraxid acompanhado por músicos de sessão, mantendo-se simultaneamente como projeto a solo no trabalho de estúdio.
Em Lucefécit nasce enquanto outro álbum já estava em construção
A cronologia de Em Lucefécit tem uma particularidade importante. Quando este disco começou a tomar forma, Koraxid já trabalhava desde 2017 naquele que viria a tornar-se Nos Olhos da Coruja.
Entretanto, surgiu a ideia de preparar um single de 7 polegadas que incluía "Corvos que Esvoaçam". O plano, porém, começou rapidamente a crescer e entre julho e outubro de 2018, Koraxid acabou por criar material suficiente para um álbum completo.
Foi assim que nasceu Em Lucefécit, lançado pela War Productions a 11 de fevereiro de 2019 em LP de 12 polegadas, numa tiragem de 273 exemplares.
Desta vez, Koraxid decidiu retirar os sintetizadores e instrumentos folk que tinham aparecido anteriormente. Em consequência, o álbum foi construído com uma instrumentação mais reduzida e uma produção mais direta.
O título vem do rio Lucefécit, no Alentejo, próximo de Alandroal e da fronteira espanhola. A região, a sua história e a ligação ao culto de Endovélico entraram, assim, na construção temática do disco.
"Visões no Deambulatório", por exemplo, teve origem numa visita a uma antiga ermida relacionada com a Ordem dos Hospitalários. Nesse espaço, Koraxid encontrou vestígios e representações de pessoas que tinham sido importantes no seu tempo e acabaram esquecidas. A letra desenvolve precisamente essa relação entre poder, desaparecimento e aquilo que pode permanecer através da criação artística.
Presságio em Caldas da Rainha regista Grievance em palco
Grievance em concerto nas Caldas da Rainha em 2019.
Além do álbum, a edição die hard de Em Lucefécit, limitada a 50 exemplares numerados, incluía uma cassete intitulada Presságio em Caldas da Rainha.
A gravação foi feita durante o Colhões de Ferro XIV, realizado a 26 de janeiro de 2019 na A062, nas Caldas da Rainha. A cassete foi produzida em quatro cores: verde, amarela, branca e vermelha.
Ao longo desse mesmo ano, Grievance continuou a aumentar a atividade de concertos. A 25 de outubro passou pelo RCA Club, em Lisboa, numa noite com Hecate Enthroned e Invoke.
Paralelamente, em 2019, Koraxid iniciou também MALDITO com Nocturnus Horrendus e D. Sabaoth. O projeto editou O Renascer, O Crer em 2020.
Nos Olhos da Coruja começou antes de Em Lucefécit
Apesar de ter sido editado depois, Nos Olhos da Coruja tinha começado a ser trabalhado em janeiro de 2017, antes da composição de Em Lucefécit. O processo prolongou-se até setembro de 2019.
O álbum estava inicialmente previsto para abril de 2020. Contudo, a pandemia alterou o calendário e a edição acabou por acontecer apenas em dezembro de 2020, através da War Productions e Void Wanderer Productions, em digipak limitado a 200 exemplares.
O quarto álbum reúne oito faixas e mais uma vez, Koraxid assumiu composição, instrumentos, voz e mistura.
Há, no entanto, duas participações particularmente relevantes. Azarath regressou como convidado em "Seres Alados", tocando guitarra rítmica e participando na composição. Foi a primeira colaboração musical relevante do cofundador depois de Grievance passar para as mãos de Koraxid em 2011.
Enjendro, por sua vez, gravou a voz da introdução de "Presságio". Sérgio Veloso realizou a masterização e Diana Silva criou a capa.
2020 a 2022: pandemia, nova formação e Wacken Metal Battle
Antes da interrupção provocada pela pandemia, Grievance tinha entrado, em janeiro de 2020, no Wacken Metal Battle Portugal. A competição acabaria suspensa, tal como a atividade normal de concertos.
Quando os ensaios e atuações regressaram em 2021, a formação de sessão já apresentava mudanças. War Faust e Urutu deram lugar a Vulture e Lammashta, enquanto Mortuum continuou na bateria e Koraxid na voz.
Nesse mesmo período, Koraxid começou também a atuar como baixista de sessão ao vivo dos Corpus Christii.
Entretanto, a competição interrompida em 2020 acabaria por ser retomada. A final nacional do Wacken Metal Battle realizou-se no SWR Barroselas, a 29 de abril de 2022. Grievance chegou à final, mas a edição portuguesa foi vencida pelos Speedemon.
Unspeakable Acts & Occult Encryptions: Grievance escreve em inglês
Durante os anos da pandemia, Koraxid gravou cinco composições que, juntas, não tinham duração suficiente para formar um álbum completo.
Em vez de as abandonar, o material acabou por constituir a metade de Grievance no split Unspeakable Acts & Occult Encryptions, dividido com Thy Black Blood.
O lançamento saiu pela War Productions a 14 de outubro de 2022, em digipak limitado a 200 cópias.
Koraxid escreveu, tocou e gravou o material no Axe Farm Studios. Depois, D. Sabaoth ficou responsável pela mistura e masterização nos Sepulchral Studios.
Neste conjunto de cinco temas, Koraxid optou pelo inglês. As letras passam pelo Atlântico, navegação, civilizações desaparecidas, o Serapeum de Saqqara, Hermes Trismegisto e diferentes interpretações de conhecimento antigo e esoterismo.
Grievance em 2023: Das Profundezas, concertos e novos projetos
Já em 19 de maio de 2023, Grievance participou na compilação Spreading The Underground, da War Productions, com o tema "Das Profundezas".
A atividade em palco também continuou. A 22 de outubro desse ano, Grievance regressou ao RCA Club, em Lisboa, para um concerto com Vectis e Irae.
Fora de Grievance, entretanto, a ligação de Koraxid aos Corpus Christii levou-o também a concertos internacionais, incluindo uma digressão pela América Latina.
Foi ainda em 2023 que Koraxid e Lord Drahkul criaram Sangue Sulfúrico.
Além disso, os dois músicos estão ligados ao Sulphur Waters Black Metal Allegiance, uma aliança de projetos e músicos associada às Caldas da Rainha. O nome faz referência direta às águas termais sulfurosas da cidade.
Antologia 1997-2024 recupera os primeiros Grievance
Capa de 'Antologia' 1997-2024 de Grievance.
O ano de 2024 começou também com Grievance em palco. A 6 de janeiro, o projeto tocou no Bourbon Room, no Porto, num cartaz encabeçado pelos noruegueses Carpathian Forest e que incluiu também Sonneillon e Cape Torment.
Quatro meses depois, a 7 de maio de 2024, a Haloran Records editou Antologia 1997-2024 em digipak limitado a 200 cópias.
A compilação reúne material de diferentes épocas, inclui "Perante o Céu Infernal", recupera composições anteriormente dispersas e coloca finalmente num lançamento físico as demos The New Millenium Sessions e Por Entre A Escuridão Outonal.
Apesar da recuperação do arquivo, Koraxid optou por não regravar o material antigo. As gravações foram preservadas e remasterizadas, mantendo as interpretações originais.
O quinto álbum de Grievance não ficou pronto em 2024
Ao mesmo tempo que recuperava material antigo, Koraxid tentava avançar para um novo álbum completo.
Durante 2024, porém, o processo não estava a produzir o resultado que pretendia. Algumas ideias foram rejeitadas e Koraxid decidiu inclusivamente voltar a gravar baterias em vez de usar material apenas porque já estava feito.
A isso juntou-se um prolongado bloqueio criativo relacionado com uma fase pessoal particularmente difícil.
Por isso, o quinto álbum acabou por não ser concluído em 2024. O material que viria efetivamente a formar Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras só começou a ser concebido e gravado em julho de 2025.
Grievance em 2025: concertos, Empalamento e Deambulações
Já em 2025, Grievance manteve atividade em palco. Entre as atuações documentadas encontra-se o Patrimónios de Peso, em Foz Côa.
Mais tarde, a 28 de novembro, Grievance atuou na República da Música, em Lisboa, numa noite com Irae e Corpus Christii.
Paralelamente, Koraxid participou no EP Ordem da Estaca, dos Empalamento, com bateria e uma participação vocal no tema que dá nome ao lançamento.
Entretanto, a 31 de outubro de 2025, apareceu uma das edições mais limitadas de toda a discografia de Grievance: Deambulações.
A compilação foi preparada em cassete pelo Axe Farm Studios e existe em pelo menos duas variantes. A Short Version reúne 11 temas e teve apenas 6 exemplares numerados à mão. Já a Extended Version aumenta a seleção para 18 temas e foi limitada a 10 exemplares.
Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras: o quinto álbum
Capa de 'Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras', o 5º álbum de Grievance.
Depois de mais de cinco anos sem um álbum completo, o sucessor de Nos Olhos da Coruja chegou finalmente a 5 de maio de 2026.
Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras tornou-se, assim, o quinto álbum de estúdio de Grievance e foi editado pela Haloran Records e Larvae Records.
Koraxid concebeu e gravou o disco no Axe Farm Studios entre julho e dezembro de 2025.
Desta vez, dedicou mais tempo à composição, gravação, mistura e pós-produção do que em vários lançamentos anteriores. Por isso, considera este o trabalho de Grievance em que alcançou o melhor resultado ao nível da mistura e produção.
O álbum reúne sete temas e cerca de 42 minutos de música.
Koraxid ficou responsável pela conceção, composição, instrumentos, voz, gravação e mistura. Ainda assim, o disco conta com algumas participações específicas.
Lord Drahkul acrescentou sintetizadores em "Floresta Crepuscular". Já Nocturnus Horrendus e J. Goat gravaram vozes convidadas em "Torturas". A fotografia da capa é de Tiago da Cruz.
Como Koraxid compõe Grievance
Grande parte das composições começa pela bateria. Koraxid cria ou improvisa estruturas rítmicas e a partir daí, trabalha guitarras, leads e baixo.
As letras costumam chegar numa fase posterior. Em vez de começar pelo texto, Koraxid prefere desenvolver primeiro a parte instrumental. Depois, ouve a música e procura imagens, lugares, memórias ou situações que correspondam ao ambiente criado.
Esse método está particularmente bem documentado em Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, onde várias letras nasceram precisamente dessa relação entre música, memória e lugar.
Floresta Crepuscular: rádio, cassetes e caminhadas noturnas
"Floresta Crepuscular" recupera memórias da juventude de Koraxid.
Antes de ter bandas, gravava em cassete música que ouvia na rádio e caminhava à noite pelas florestas próximas da zona rural onde vivia. Mais tarde, essas recordações acabariam por regressar durante a criação do álbum.
Foi dessa relação entre música, escuridão e paisagem que nasceu o tema.
A participação de Lord Drahkul surgiu já durante as gravações. Os riffs estavam feitos quando visitou o Axe Farm Studios. Nesse momento, Koraxid convidou-o a experimentar uma linha de sintetizador num teclado MIDI e acabou por manter o resultado na versão final.
Castelo de Árvores nasce de uma paisagem real
"Castelo de Árvores" nasceu igualmente de uma paisagem que Koraxid conhecia desde novo.
A partir de um vale, observava uma elevação com grandes pinheiros no topo. Quando os eucaliptos e a vegetação inferior eram cortados, os pinheiros ficavam isolados na parte superior da montanha.
Sob a lua cheia, a imagem mudava completamente: o cume fazia lembrar uma fortaleza. Foi precisamente essa visão que se tornou a base da letra, com árvores no lugar de muralhas.
Promontório dos Espíritos e os mortos do Atlântico
"Promontório dos Espíritos" desloca a paisagem para o limite ocidental do continente, diante do Atlântico.
Nesse cenário, o promontório funciona como ponto de contacto entre terra e oceano e permite à letra olhar para navegadores, náufragos e pessoas que desapareceram no mar.
Em vez de se concentrar apenas nas viagens, a composição trabalha também a memória dessas vidas através do vento, da água e das falésias.
Em Besta me Transformo usa a licantropia para falar do comportamento humano
"Em Besta me Transformo" parte da figura do lobisomem, mas a transformação não é apresentada apenas como um acontecimento sobrenatural.
Neste caso, a besta representa impulsos, violência e desejos reprimidos dentro do indivíduo. A transformação acontece quando essa contenção deixa de funcionar e aquilo que estava escondido passa a dominar o comportamento.
Torturas divide o tema por três vozes
"Torturas" segue outra abordagem e utiliza três vocalistas para separar diferentes partes da letra.
Nocturnus Horrendus assume quatro referências a métodos históricos de tortura física. J. Goat, por sua vez, interpreta quatro formas de violência psicológica. Koraxid canta as restantes passagens e estabelece a ligação entre as duas partes.
Dessa forma, a composição confronta instrumentos de tortura associados ao passado com manipulação, intimidação, humilhação e destruição psicológica.
A escolha dos convidados também tem uma explicação concreta. A participação de Nocturnus Horrendus e J. Goat está diretamente ligada à relação criada através dos Corpus Christii, onde Koraxid tem trabalhado como músico de sessão ao vivo.
Clausura nasceu junto ao Convento de Cós
"Clausura" nasceu quando a música do álbum já estava composta, mas a letra ainda não existia.
À procura de uma ideia, Koraxid saiu de casa com papel e caneta e deslocou-se até à zona do Convento de Cós. Junto ao edifício encontrou as ruínas dos antigos dormitórios.
Foi aí que entrou no espaço, se sentou e começou a construir o primeiro esboço da letra, relacionando o ambiente com experiências pessoais.
No Fundo do Desfiladeiro aproxima Grievance do horror
"No Fundo do Desfiladeiro" parte de histórias relacionadas com lugares e cavidades escondidas numa zona entre Caldas da Rainha, Rio Maior e Benedita.
A essa referência, Koraxid juntou a imagem de uma floresta japonesa situada junto ao Monte Fuji e conhecida pela associação ao suicídio.
O resultado transforma esses elementos numa narrativa sobre queda, morte e isolamento, aproximando o tema de uma história de horror propriamente dita.
O black metal como escapismo para Koraxid
A ligação entre lugares, memória e música tem raízes antigas. Ainda na juventude, Koraxid encontrou no black metal uma forma de afastamento temporário dos problemas do quotidiano.
A música permitia-lhe caminhar sozinho, ouvir cassetes, imaginar cenários e mais tarde, transformar experiências pessoais em música e letras.
É também por isso que não limita as letras de Grievance ao satanismo, anticristianismo ou religião. Em vez disso, escreve sobre lugares, história, morte, horror, experiências pessoais, mitos e comportamento humano sempre que esses assuntos correspondem à música que está a compor.
A edição física de Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras
Além da edição musical, Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras recebeu uma edição física de 200 LPs gatefold, divididos entre 100 exemplares em vinil preto e 100 em vinil "lighthouse orange".
Dentro dessa tiragem, as primeiras 50 cópias laranja incluíram ainda um booklet A5 com informação adicional sobre os temas e um postal assinado.
Grievance em 2026: formação de palco com quatro membros de sessão
Enquanto o trabalho de estúdio continua concentrado em Koraxid, a atividade de palco mantém uma formação completa. Em setembro de 2026, Koraxid apresenta Grievance acompanhado por Strix no baixo, Mortuum na bateria, Lord Drahkul na guitarra e Lammashta na guitarra.

Os quatro são membros de sessão para os concertos. Grievance continua, portanto, a ser um projeto a solo de Koraxid.
Na configuração atual, Strix ocupa o baixo anteriormente entregue a Vulture. Mortuum mantém-se ligado à formação de palco desde 2018 e participa também em Oppidum Mortuum. Lammashta está ligado a Resurrect. Lord Drahkul, além da guitarra nos concertos, participou diretamente no álbum de 2026 através dos sintetizadores de "Floresta Crepuscular".
A atividade de palco continuou durante 2026 e olhando já para as próximas datas, Grievance tem presença confirmada no Viseu Rockfest, a 3 de outubro de 2026, no Orfeão de Viseu.
Occult Encryptions regressa como lançamento autónomo
Cassete Occult Encryptions de Grievance, edição física lançada em 2026.
Poucos meses depois do quinto álbum, a 7 de setembro de 2026, Grievance lançou Occult Encryptions como miniálbum autónomo.
O material, contudo, não é novo. As cinco composições são as mesmas que tinham constituído a metade de Grievance no split com Thy Black Blood em 2022.
Em vez de as regravar, Koraxid regressou às gravações originais e realizou uma nova mistura e masterização, mantendo as interpretações registadas durante a criação do material.
O miniálbum tem cerca de 26 minutos e recupera os temas ligados ao Atlântico, arqueologia, civilizações desaparecidas e esoterismo que já tinham marcado o material de 2022.
Além da edição autónoma, a primeira versão física foi limitada a 30 cassetes translúcidas vermelhas, numeradas e com capa desdobrável, através de Apocryrec e Axe Farm Studios.
Koraxid já pensa no próximo álbum de Grievance
Depois do intervalo superior a cinco anos entre Nos Olhos da Coruja e Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, Koraxid descreveu esse período sem um novo álbum como "muito tempo".
Em julho de 2026 afirmou que queria fazer mais música nova e que já estava a planear gravar outro trabalho de Grievance. Acrescentou ainda que tinha outras ideias em desenvolvimento e que queria continuar a desenvolver o som do projeto.
Por enquanto, não existem título, alinhamento, datas de gravação ou data de lançamento anunciados para esse próximo trabalho.
Discografia de Grievance em ordem cronológica
- 1997: Por Entre A Escuridão Outonal, demo.
- 2007: The New Millenium Sessions, demo.
- 2013: Retorno, primeiro álbum, edição digital independente.
- 2014: Retorno, edição física pela Nyarlathotep Records.
- 2016: Perante o Céu Infernal, single autónomo.
- 2016: Pilar, Pedra e Faca, segundo álbum de estúdio.
- 2018: Pilar, Pedra e Faca, edição física em CD.
- 2018: "Náusea", participação em Howls From The Blackwood Vol. 4.
- 2019: Em Lucefécit, terceiro álbum de estúdio.
- 2019: Presságio em Caldas da Rainha, gravação de concerto em cassete.
- 2020: Nos Olhos da Coruja, quarto álbum de estúdio.
- 2022: Unspeakable Acts & Occult Encryptions, split com Thy Black Blood.
- 2023: "Das Profundezas", participação em Spreading The Underground.
- 2024: Antologia 1997-2024, compilação e recuperação de arquivo.
- 2025: Deambulações, compilação em cassete nas versões Short e Extended.
- 2026: Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, quinto álbum de estúdio.
- 2026: Occult Encryptions, miniálbum com nova mistura e masterização das cinco faixas originalmente editadas no split de 2022.
Koraxid de Grievance no Força Bruta a 18 de setembro
Quando Koraxid entrar no Força Bruta a 18 de setembro, haverá quase três décadas da história de Grievance para percorrer.
Desde maio de 1997 até setembro de 2026, ficaram duas demos, cinco álbuns de estúdio, uma fase experimental com trompete, anos de separação geográfica entre os fundadores, a transformação de Grievance num projeto a solo em 2011, o regresso aos concertos com músicos de sessão e gravações antigas recuperadas décadas depois.
Entretanto, 2026 trouxe também acontecimentos suficientes para abrir uma nova fase da conversa: Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras chegou em maio, Occult Encryptions foi editado em setembro, a formação de palco apresenta atualmente Koraxid acompanhado por Strix, Mortuum, Lord Drahkul e Lammashta e ao mesmo tempo, Koraxid já começou a planear o próximo álbum.
Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto
6ª feira, das 20h às 23h
- Live stream aqui no site.
- Acompanhar no Twitch ou na Live no TikTok.
- Ouvir no site da All Stars Radio ou na App All Stars Radio.
- As entrevistas são também transmitidas em vídeo no Facebook do Força Bruta por volta das 21:30.
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