Hourswill: história, discografia e a atualidade da banda de Metal Progressivo

80ª Edição do Força Bruta

Emissão: sexta-feira, 21 de agosto de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Hourswill, banda de metal progressivo numa floresta num dia soalheiro

(Foto: Joana Marçal Carriço)

Os Hourswill são uma banda portuguesa de metal progressivo formada em Lisboa por volta de 2009, construída sobre uma base de heavy metal, hard rock e rock progressivo, mas desde cedo pouco interessada em obedecer a fronteiras rígidas entre géneros. O percurso começou com experiências, gravações embrionárias e uma formação difícil de completar, atravessou mudanças importantes de músicos e de abordagem e chegou em 2026 a "Ensemble", quarto álbum de estúdio e um trabalho em que a banda ampliou ainda mais a liberdade de composição, a diversidade musical e a dimensão conceptual.

Na sexta-feira, 21 de agosto de 2026, os Hourswill estarão no Força Bruta, em direto entre as 20h e as 23h, com entrevista por volta das 21:30, numa conversa que deverá percorrer a história da banda, as mudanças de formação e a evolução entre "Inevitable", "Harm Full Embrace", "Dawn Of The Same Flesh" e "Ensemble". Pelo caminho, haverá ainda espaço para abordar o longo processo de criação do novo disco, as histórias por detrás de alguns dos seus momentos mais particulares e aquilo que poderá seguir-se numa fase em que os próprios Hourswill deixam em aberto o próximo destino musical.

Sobre os Hourswill, banda de metal progressivo

A história dos Hourswill começa essencialmente em torno de José Bonito e Nuno Peixoto, que já tinham tocado juntos na adolescência e acabaram por formar o núcleo em redor do qual a banda seria construída. A ideia não nasceu acompanhada por um grande plano de carreira, já que o objetivo passava simplesmente por reunir músicos e fazer música a partir dos gostos e referências que tinham acumulado ao longo dos anos, deixando que o resultado encontrasse o próprio caminho.

Foi por volta de 2009 que conseguiram reunir os cinco elementos necessários para colocar a banda efetivamente em funcionamento, embora completar a formação tenha sido uma das primeiras dificuldades. Nuno Damião, que já fazia parte do círculo próximo de José Bonito e Nuno Peixoto, viria a assumir a voz, enquanto diferentes músicos foram sendo experimentados até existir uma formação suficientemente estável para permitir que as composições avançassem.

Entre os nomes ligados a essa primeira fase estiveram Ruben Chamusca e Rodrigo Louraço, enquanto, mais tarde, Sérgio Melo ficaria também estreitamente associado ao processo que conduziu ao primeiro álbum, tanto no lado técnico como musical.

As referências de partida encontravam-se sobretudo no heavy metal, hard rock e metal dos anos 80 e 90, embora nunca tenham ficado limitadas a esse período, já que música dos anos 60 e 70, rock progressivo, thrash, death metal e outras linguagens foram entrando naturalmente. Os músicos sempre tiveram gostos suficientemente diferentes para que a soma dessas referências fosse mais importante do que qualquer tentativa de reproduzir uma determinada banda ou escola.

Foi precisamente essa abertura que fez com que o rótulo de metal progressivo acabasse por acompanhar os Hourswill, sobretudo devido às estruturas, mudanças, liberdade instrumental e natureza pouco convencional de muitas composições. Ainda assim, a banda sempre mostrou pouca preocupação em encontrar uma classificação exata e se uma sonoridade inesperada servir uma música, pode entrar nela independentemente da etiqueta que lhe seja atribuída.

As primeiras gravações e a estreia em palco

Antes de existir um álbum propriamente dito, houve experiências destinadas a perceber até onde aqueles músicos conseguiam levar o projeto e nesse contexto, em 2009, "Nothing Divine MMIX" funcionou essencialmente como um exercício embrionário, uma forma de testar ideias e perceber aquilo que os Hourswill conseguiam fazer naquele momento.

Dois anos depois surgiu o material conhecido como Demo MMXI que, apesar da designação, não chegou verdadeiramente a funcionar como uma demo formalmente editada e distribuída, tratando-se sobretudo de gravações internas e de pré-produção. Quase todo esse material seria posteriormente aproveitado em "Inevitable", ficando de fora apenas pequenas peças instrumentais.

Também em 2011 chegou um momento decisivo com o primeiro contacto real com o público. A própria memória dos músicos sobre a data chegou a oscilar quando recordaram esses primeiros anos, mas Nuno Peixoto acabaria por situar a estreia em palco em novembro de 2011, na zona dos bares da Expo, em Lisboa.

"Inevitable" ainda não estava gravado, embora quase todas as músicas que viriam a integrar o primeiro álbum já existissem e tenham sido apresentadas nesse concerto. Na altura, os Hourswill tinham apenas um single disponível e desconheciam completamente de que maneira o público reagiria àquela proposta, mas a resposta acabou por ser suficientemente positiva para deixar uma marca duradoura.

Para Nuno Peixoto, a energia desse primeiro encontro entre banda e público teve particular importância, porque demonstrou que aquelas composições, até então construídas essencialmente entre ensaios e gravações, podiam estabelecer uma ligação quando transportadas para palco.

Hourswill e "Inevitable": o primeiro álbum e uma visão sombria do mundo

Capa do álbum dos Hourswill, Inevitable"Inevitable", o 1º álbum de Hourswill foi editado em outubro de 2014.

O caminho entre as primeiras gravações e o álbum de estreia não foi totalmente linear, já que Rodrigo Louraço chegou a trabalhar e a gravar leads e solos para material destinado a "Inevitable" antes de sair da formação. Sérgio Melo, que já estava envolvido como engenheiro e co-produtor, acabou então por participar também musicalmente e por completar trabalho de guitarra nessa fase.

"Inevitable" foi editado em outubro de 2014 e apresentou publicamente os Hourswill como uma banda capaz de trabalhar peso, progressão e ambientes sombrios sem transformar o metal progressivo numa fórmula técnica ou numa demonstração permanente de virtuosismo.

As referências ao heavy, thrash e death metal dos anos 80 e 90 coexistiam com hard rock, rock progressivo e outras influências absorvidas pelos músicos, não porque existisse a intenção deliberada de construir uma mistura de géneros, mas porque essas referências podiam surgir sempre que a composição as justificasse.

Na componente lírica, a presença de Nuno Damião deu ao primeiro álbum uma tonalidade particularmente densa, em que a crise económica, a insegurança social, os erros repetidos ao longo da história, o comportamento humano e uma perceção pessimista da realidade alimentavam um cenário quase apocalíptico. Essa negatividade, contudo, não equivalia a resignação, já que aquilo que atravessava "Inevitable" era sobretudo um sentimento de inconformismo.

A raiva, o desconforto e a crítica surgiam assim como resposta à realidade observada, estabelecendo temas que, mesmo depois da mudança de vocalista, nunca desapareceriam completamente da escrita dos Hourswill.

Ao mesmo tempo, o álbum marcou o início de uma relação duradoura com a Ethereal Sound Works, colaboração que se prolongou pelos trabalhos seguintes e ultrapassou uma década, permitindo que banda e editora fossem conhecendo progressivamente as respetivas formas de trabalhar.

"Harm Full Embrace": nova voz, outra perspetiva e maior abertura musical

Capa Harm Full EmbraceCapa do álbum "Harm Full Embrace", de 2017.

A mudança mais significativa antes do segundo álbum ocorreu na voz, quando, depois da saída de Nuno Damião, os Hourswill procuraram alguém com quem existisse compatibilidade musical e encontraram Leonel Silva.

A integração aconteceu em circunstâncias particularmente exigentes, pois Leonel entrou para a banda quando faltavam apenas cerca de três semanas para começar a gravação de "Harm Full Embrace". Recebeu, por isso, música que já estava bastante avançada e precisou de construir rapidamente um universo lírico capaz de funcionar dentro dela, prolongando-se depois o trabalho das vozes durante aproximadamente três meses.

"Harm Full Embrace" foi lançado a 11 de setembro de 2017 e representou uma evolução em relação ao álbum de estreia, com os Hourswill a procurarem um resultado mais orgânico e dinâmico que permitisse às diferentes influências surgir com maior naturalidade.

O processo de composição assentava já numa estrutura que permaneceria reconhecível anos depois: José Bonito e Nuno Peixoto desenvolviam habitualmente as bases, partindo de riffs de guitarra, bateria e estruturas iniciais, para depois os restantes músicos acrescentarem arranjos, partes e ideias próprias. Ainda assim, o método nunca foi fechado, pelo que uma proposta apresentada por qualquer elemento podia alterar o rumo de uma composição se a banda entendesse que a música ganhava com isso.

Na escrita, Leonel recebeu grande liberdade e o eixo conceptual de "Harm Full Embrace" acabou associado ao retrocesso da humanidade, à ideia de que o ser humano, em vez de aprender e avançar, parece recuar e aproximar-se repetidamente da própria destruição.

A mudança de vocalista não eliminou, portanto, os temas presentes em "Inevitable", mas alterou sobretudo a perspetiva. Se o primeiro álbum olhava para um cenário semelhante de uma forma mais carnal, densa e dominada pela raiva, com Leonel a observação tornou-se mais analítica, quase como se os mesmos fenómenos fossem vistos de uma distância maior. As relações humanas, a sociedade, os comportamentos coletivos e a decadência continuavam presentes, embora agora expressos por outra voz e outra forma de escrever.

"Harm Full Embrace" marcou também o início da colaboração com Fernando Matias, porque, depois de um primeiro álbum desenvolvido de forma bastante interna, os Hourswill quiseram introduzir uma pessoa exterior capaz de ouvir as músicas sem estar condicionada pelo processo de composição. Matias foi escolhido para esse papel e contribuiu também com texturas de teclado, dando início a uma relação que se tornaria cada vez mais importante nos discos seguintes.

As participações externas presentes no álbum também não fizeram parte de um plano desenhado antecipadamente para acumular convidados, surgindo antes quando as próprias músicas exigiram elementos que a formação não conseguia ou não pretendia reproduzir sozinha.

Foi assim que João Paulo Farinha, que já tinha partilhado outros projetos musicais com José Bonito, participou com guitarra clássica em "Everyday Sage", enquanto Valter Freitas, dos Opus Diabolicum e então próximo da banda através das salas de ensaio, foi chamado para introduzir violoncelo quando José procurava uma determinada atmosfera. Já Rick Chain, associado a Besta e Sinistro, participou em "Mass Insanity" depois de a construção de um arranjo vocal chegar a um impasse.

Nesta fase, os Hourswill começaram igualmente a trabalhar mais seriamente na possibilidade de fazer chegar a música a outros mercados. Existiam contactos e vontade de internacionalização, embora a banda recusasse transformar intenções em anúncios antes de existirem acontecimentos concretos.

O período revelou ainda uma preocupação que viria a crescer nos anos seguintes, já que os músicos reconheciam as vantagens das plataformas digitais para distribuição, mas lamentavam ao mesmo tempo a perda do ritual de ouvir um álbum completo, explorar o encarte e dedicar tempo a uma obra. Essa reflexão tornar-se-ia progressivamente mais vincada à medida que a forma de consumir música continuou a mudar.

Hourswill em "Dawn Of The Same Flesh": o conceito passa para o centro

Capa Dawn Of The Same FleshCapa do 3º álbum, "Dawn Of The Same Flesh" de 2019.

O terceiro álbum, "Dawn Of The Same Flesh", foi lançado a 1 de novembro de 2019 e surgiu numa altura em que os próprios Hourswill não esperavam necessariamente avançar tão depressa para um novo longa-duração, mas o impulso decisivo acabaria por chegar através de Leonel Silva.

O vocalista apresentou uma ideia suficientemente sólida para sustentar uma narrativa completa e a partir daí, o processo ganhou velocidade, passando o conceito a ter influência direta sobre o desenho musical do álbum.

O disco aprofundava temas que os Hourswill já vinham a trabalhar desde o início, pelo que a humanidade, a repetição de erros, o poder, a sociedade, a incapacidade de aprender com a história e a tendência para a autodestruição continuavam a alimentar as letras. O que se alterava de álbum para álbum era sobretudo a perspetiva, a estrutura narrativa e a forma musical usada para abordar essas questões.

A banda considerava, assim, que a expressão podia mudar bastante sem que aquilo que estava no centro do projeto tivesse necessariamente de mudar, até porque alterações de formação, amadurecimento musical e experiências pessoais diferentes conduziam naturalmente a novos ambientes e novas formas de escrever sem ser necessário apagar o que tinha existido antes.

Quando "Dawn Of The Same Flesh" ficou terminado, José Bonito ficou, no entanto, com uma inquietação: sentia que algumas partes poderiam ter ido ainda mais longe e que a banda talvez tivesse sido capaz de arriscar mais musicalmente, uma sensação que viria a ter consequências diretas no álbum seguinte.

Durante as sessões existia ainda uma composição que não chegou a entrar no disco porque era musicalmente diferente e apresentava inclusivamente diferenças de afinação que dificultavam o seu encaixe no conjunto. Em vez de desaparecer, porém, essa música acabou guardada e tornar-se-ia uma peça fundamental para aquilo que os Hourswill fariam depois.

Do material rejeitado de "Dawn" ao nascimento de "Ensemble"

O desenvolvimento do quarto álbum avançou inicialmente com uma rapidez surpreendente e quando Portugal entrou no primeiro confinamento de 2020, os Hourswill já tinham cerca de 80 a 85% do material musical que viria a integrar "Ensemble" composto.

A composição que ficara de fora de "Dawn Of The Same Flesh" tornou-se uma espécie de material genético para aquilo que se seguiu, sendo desmontada e repartida até vários dos seus riffs e elementos acabarem espalhados por quase todo o novo disco.

Ao mesmo tempo, a inquietação deixada pelo álbum anterior transformou-se numa vontade clara de ir mais longe, abrindo espaço para estruturas extensas, ambientes diferentes e soluções que não precisavam de obedecer a uma expectativa de continuidade e que, por isso, passaram a poder ser exploradas sem a mesma contenção.

O facto de cerca de 80 a 85% do material musical de "Ensemble" já estar composto em 2020 não significou, contudo, que o álbum pudesse ser terminado rapidamente. A pandemia alterou o funcionamento da banda e entretanto, somaram-se acontecimentos pessoais importantes, com problemas e sequelas associados àquele período, divórcios, nascimentos de filhos, casamentos, mudanças de casa e mortes de familiares a cruzarem-se com dificuldades de agenda entre músicos, produtor, estúdio e editora.

À medida que os anos passaram, a preocupação com o intervalo entre discos foi-se tornando secundária e o objetivo deixou de ser terminar depressa para passar a ser concluir o trabalho da forma que fazia sentido.

Hourswill e "Ensemble": oito temas retirados de 18 gravações

Capa Ensemble"Ensemble" é o 4º álbum dos Hourswill, lançado em maio de 2026

"Ensemble" foi lançado a 19 de maio de 2026 e tornou-se o quarto álbum dos Hourswill. O disco que chegou ao público contém oito temas, embora a dimensão do processo tenha sido bastante maior, já que durante as sessões a banda chegou a gravar 18 músicas.

O objetivo inicial era criar um documento musical ainda mais volumoso e foram, por isso, trabalhadas e registadas muitas horas de música, acabando oito dessas composições por formar o álbum. Isso ajuda também a explicar a dimensão do processo de produção e a quantidade de material que permaneceu fora da edição de 2026.

A construção conceptual funcionou, contudo, de maneira inversa à de "Dawn Of The Same Flesh": enquanto no álbum de 2019 existia primeiro uma narrativa que orientava a composição, em "Ensemble" foram as próprias músicas que começaram a sugerir os conceitos. As peças podiam ser tão diferentes que, isoladamente, algumas pareceriam pertencer a discos distintos, tornando necessário encontrar depois uma forma de as ligar.

Essa unidade surgiu através das histórias, das diferentes línguas e de uma ideia comum capaz de juntar contrastes em vez de os apagar, sendo também por isso que o título "Ensemble" foi escolhido pela capacidade de ser compreendido em vários idiomas e pela noção de conjunto que transporta.

Num mundo cada vez mais fraturado por diferenças sociais, culturais, políticas e ideológicas, os Hourswill construíram assim uma mensagem deliberadamente utópica: por mais diferentes que sejam, as pessoas continuam ligadas por uma condição comum. A diversidade linguística dos títulos reforça essa ideia, usando a própria diferença como parte essencial do conceito.

Os primeiros singles mostraram rapidamente que não existiria uma fórmula única. "Unheilvoll" foi o primeiro avanço e teve ainda a particularidade de ser a última música composta para o álbum, tendo a banda procurado escrever algo assumidamente próximo do heavy metal clássico, relativamente direto e sem excesso de complexidade, inspirado em referências como Saxon, Accept e Scorpions do início dos anos 80.

"Unheilvoll" pode ser entendido através de significados próximos de "desastroso", "ameaçador" ou "nefasto" e a letra observa precisamente a existência humana na sociedade moderna, assim como o crescimento de políticas e ideologias perigosas alimentadas pela frustração, desilusão, fraqueza, fracasso, descontentamento e ódio.

A gravação foi relativamente rápida e tranquila, contrastando com outras partes muito mais complexas do álbum, enquanto a escolha da música como primeiro single não partiu diretamente da banda, mas da editora, que entendeu que representava bem uma das faces do disco.

O segundo avanço, "Depressione Anaclitica", mostrou precisamente outra direção, aproximando-se musicalmente de uma textura de hard rock com elementos de rock progressivo. A escolha dos dois temas ajudou, assim, a antecipar um disco no qual o heavy metal clássico convive com momentos progressivos, passagens atmosféricas, psicadelismo e estruturas bastante mais extensas.

"Ensemble" é também o trabalho em que os Hourswill consideram ter deixado a componente emocional mais exposta, porque, embora o risco sempre tenha feito parte da composição da banda, desta vez foi acompanhado por uma emotividade que os próprios músicos entendem estar mais evidente do que nos discos anteriores.

"Le Radeau de la Méduse": uma narrativa de quase 23 minutos

O exemplo mais evidente da escala alcançada em "Ensemble" é "Le Radeau de la Méduse", uma composição de quase 23 minutos e o tema mais extenso alguma vez editado pelos Hourswill.

Apesar da dimensão final, a construção musical foi relativamente rápida, até porque a banda já tinha há anos vontade de fazer algo desta amplitude e quando as peças começaram a aparecer, a estrutura ganhou forma com naturalidade. Curiosamente, a própria gravação acabaria por exigir mais tempo do que a escrita.

O tema foi registado por partes e através de vários takes, procurando preservar o sentimento adequado a cada momento, sendo que inicialmente a composição era ainda maior do que a versão publicada.

A música surgiu antes da história, o que significa que nem a pintura "Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault, nem o episódio histórico que representa estiveram na origem da composição instrumental. Foi apenas depois de Leonel ouvir o material que percebeu imediatamente a história sobre a qual queria escrever.

Quadro Le Radeau de la Méduse, de Théodore GéricaultQuadro "Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault.

A letra centra-se no naufrágio da fragata francesa Méduse, no início do século XIX, e na tragédia das quase 150 pessoas que, sem lugar nos botes salva-vidas, ficaram numa enorme jangada improvisada e acabaram abandonadas à deriva.

Um acontecimento desta dimensão exigia espaço para ser contado, já que a sucessão de infortúnios, a luta pela sobrevivência e o comportamento humano perante circunstâncias extremas dificilmente caberiam numa estrutura convencional. A duração, que noutra música poderia parecer desproporcionada, tornou-se assim consequência da própria narrativa e os Hourswill nunca sentiram necessidade de a reduzir apenas para obedecer a uma norma.

O cruzamento posterior entre música e narrativa obrigou, ainda assim, a alterações, porque José Bonito tinha gravado solos numa versão instrumental que chegou a Leonel sem essas guitarras e quando a estrutura vocal ficou definida, alguns desses solos ocupavam espaços necessários à narrativa. A solução passou então por deslocá-los para outros pontos da composição.

Para Leonel Silva, "Le Radeau de la Méduse" tornou-se a letra mais difícil que tinha escrito até então, não apenas pela duração, mas porque pela primeira vez estava a trabalhar tão diretamente sobre acontecimentos históricos concretos e factos reais, em vez de construir sobretudo imagens abstratas.

A parte final da narrativa exigia ainda outra textura vocal e é aí que surge Nuno Cruz, escolhido para acrescentar uma abordagem death metal old school nas secções mais pesadas, com a intenção de que aquela voz pudesse assumir quase a representação da própria morte dentro da história.

No fundo, a composição leva ao extremo uma ideia simples que acompanha a atual forma de trabalhar dos Hourswill: uma música deve durar aquilo que precisar de durar para ficar completa.

Hourswill, Fausto e "O Que a Vida Me Deu"

Se "Le Radeau de la Méduse" representa um extremo estrutural de "Ensemble", "O Que a Vida Me Deu" revela outro tipo de risco, já que os Hourswill decidiram reinterpretar uma composição de Fausto Bordalo Dias que alguns dos próprios músicos consideravam precisamente uma daquelas músicas em que seria preferível não mexer.

A escolha nasceu durante a pré-produção, quando José Bonito sentiu que faltava ao álbum um momento musical e lírico fora do espectro habitual da banda, mas capaz de reforçar a ideia de união presente no conceito. Depois de tentar desenvolver uma composição própria e perceber que não estava a chegar ao resultado pretendido, voltou à sua coleção de música portuguesa e encontrou "Por Este Rio Acima", de 1982.

A ligação de José à música de Fausto vem da infância, uma vez que nasceu nos anos 70 e cresceu durante os anos 80 num meio operário onde recorda o hábito de ouvir trabalhadores cantarolarem músicas dos cantautores portugueses enquanto trabalhavam. Essas memórias acabaram por permanecer associadas à sua relação com a música.

A história é também pessoal para Leonel Silva, porque um dos primeiros concertos de que se recorda foi precisamente Fausto, quando tinha 11 anos e foi acompanhado pelo pai. Décadas depois, encontrar-se-ia perante o desafio de cantar uma música do autor num álbum dos Hourswill.

A decisão de fazer a versão foi tomada quando Fausto ainda era vivo e o objetivo nunca foi, portanto, produzir uma homenagem póstuma, mas fazer esse reconhecimento em vida. A morte do músico durante a produção de "Ensemble" acabou inevitavelmente por dar outro peso ao resultado final.

Musicalmente, a primeira dificuldade era evidente, uma vez que o original vive essencialmente de guitarra e piano e não precisava de uma secção pesada para funcionar. Os Hourswill entenderam, por isso, que só faria sentido transportá-lo para o seu universo se o baixo assumisse um papel predominante.

Pedro Burt Costa acabou então por reconstruir as funções dos instrumentos originais utilizando dois baixos, um elétrico e um eletroacústico, ficando um responsável por reproduzir parte da função do dedilhado de guitarra e o outro por ocupar um espaço próximo daquele que o piano tem no original.

A ligação de "O Que a Vida Me Deu" a "Por Este Rio Acima", álbum de 1982 inspirado em "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto, levou depois a banda a procurar uma dimensão tímbrica que estabelecesse uma ponte com esse contexto.

Foi então convidado Luís Simões, dos Saturnia, que acrescentou sitar, tanpura, gongo e reverse guitar, aproximando o universo progressivo dos Hourswill do psicadelismo associado ao seu trabalho e de uma composição portuguesa que originalmente não pertence a nenhum desses territórios.

A escolha ganhou ainda outra camada porque "O Que a Vida Me Deu" é também uma das músicas de Fausto preferidas de Luís Simões e a participação surgiu, assim, através de um músico que tinha uma ligação real à canção e ao universo de onde ela vinha.

Para Leonel, cantar a música tornou-se um dos maiores desafios vocais de "Ensemble", já que, habituado a um registo muito mais pesado, se encontrou perante uma composição que o obrigava a trabalhar nuances completamente diferentes, quase entrando num território que ele próprio comparou, em tom descontraído, a ter de cantar fado.

A banda, porém, não lhe impôs uma forma específica de interpretação, porque o objetivo era respeitar a composição sem tentar imitar Fausto. Leonel procurou então preservar características reconhecíveis da sua própria voz, recorrendo também a sobreposições vocais e a uma interpretação suficientemente diferente do original para justificar a existência da versão.

Fernando Matias, o "sexto elemento" em estúdio

A relação com Fernando Matias, iniciada em "Harm Full Embrace", tornou-se progressivamente mais profunda e quando chegou "Ensemble", já ultrapassava claramente a função tradicional de produtor.

As sessões envolveram uma enorme quantidade de material, repetição de partes, alterações de arranjos e discussões sobre detalhes que, em alguns casos, apenas os próprios músicos seriam capazes de distinguir, sendo José Bonito quem assume particularmente essa obsessão. O guitarrista chega a repetir partes que poderiam ser consideradas terminadas devido a pequenas diferenças de execução, dinâmica ou volume.

Há, por isso, decisões discutidas em torno de diferenças mínimas, incluindo frações de decibéis, e é também nesse ponto que o produtor funciona como alguém capaz de perceber quando uma ideia precisa realmente de mais trabalho e quando é preferível parar.

Não surpreende, assim, que os Hourswill cheguem a referir Fernando Matias, de forma informal, como uma espécie de "sexto elemento". A expressão não corresponde a uma alteração oficial da formação, mas traduz o peso que ganhou no processo criativo, até porque existem elementos de "Ensemble" que nasceram diretamente em estúdio através de sugestões ou soluções encontradas durante as gravações.

Uma das características mais valorizadas pela banda é precisamente a capacidade de Matias perceber uma intenção que um músico nem sempre consegue explicar tecnicamente e transformá-la numa solução concreta, fazendo com que o estúdio se torne não apenas um espaço de registo, mas também uma extensão da própria composição.

Tainan Reis descreveu igualmente a gravação como um processo de convivência e experimentação, procurando estar presente sempre que possível mesmo quando não era a sua vez de tocar. Entre a concentração nos detalhes e o ambiente informal, chegou ainda a brincar com o seu próprio ritual antes de gravar: uma cachaça, a sua "bebida dos deuses", para entrar no estado certo.

Formação atual dos Hourswill e projetos paralelos dos músicos

Em 2026, os Hourswill apresentam-se com José Bonito na guitarra, Tainan Reis na guitarra, Pedro Burt Costa no baixo, Nuno Peixoto na bateria e Leonel Silva na voz.

O método de criação continua ligado às origens da banda, com José a trabalhar ideias de guitarra e a registar material antes de desenvolver as estruturas com Nuno à bateria. A partir dessa base, os restantes elementos acrescentam arranjos, soluções instrumentais e novas propostas, mantendo cada tema aberto a alterações enquanto estas fizerem musicalmente sentido.

Os membros mantêm também atividades paralelas e no caso de Nuno Peixoto, existe uma ligação aos Inner Blast, com quem já voltou a atuar. Pedro Burt Costa, por sua vez, mantém uma antiga banda que nasceu no punk e funciona de forma intermitente, embora o próprio Pedro brinque com o facto de o projeto ter acabado por ganhar também uma dimensão mais metálica.

Leonel Silva continua particularmente ocupado fora dos Hourswill, com Mindfeeder e Fantasy Opus a fazerem parte do seu percurso, ao mesmo tempo que mantém trabalho com músicos e projetos internacionais. Em 2026 falava também de trabalho relacionado com Almanac e Victor Smolski, além de outras colaborações e sessões com músicos de diferentes países.

Tainan Reis revelou, entretanto, outro projeto orientado para um heavy metal de inspiração mais clássica, energético e com forte presença de solos de guitarra, partindo precisamente do tipo de heavy metal com que cresceu e tendo Judas Priest entre as referências. Para esse projeto chamou músicos próximos do universo dos Hourswill, incluindo Leonel e Pedro, além de Ricardo Alonso, ligado aos Fantasy Opus.

Os projetos paralelos mostram, assim, que os membros dos Hourswill continuam ativos em contextos musicais bastante diferentes para além da banda.

Hourswill de volta aos palcos depois de seis anos

O concerto de apresentação de "Ensemble", realizado no RCA Club, em Lisboa, a 27 de junho de 2026, teve um significado particular, não apenas por apresentar material do novo álbum, mas também por assinalar o regresso da banda completa aos palcos depois de um intervalo que remontava a 2020, antes da paralisação provocada pela pandemia.

Transportar "Ensemble" para palco colocava inevitavelmente desafios devido às composições extensas, mudanças de dinâmica e partes bastante detalhadas, embora a banda entendesse que essas músicas podiam funcionar com intensidade sem ser necessário reproduzir de maneira rígida cada particularidade do disco.

Nos ensaios anteriores ao concerto, Pedro Burt Costa considerava que o material estava a fluir naturalmente e por isso, a intenção não era transformar a apresentação num exercício de perfeição clínica, mas fazer com que aqueles temas mantivessem a intensidade, a rudeza e a componente rock que sempre acompanhou os Hourswill.

O regresso não foi, contudo, acompanhado por um anúncio imediato de digressão. Mesmo depois de "Ensemble", os Hourswill mantiveram a postura habitual de não transformar possibilidades em promessas, pelo que concertos poderão surgir à medida que existam propostas e condições, mas uma tour dedicada ao álbum não foi apresentada como facto consumado.

O que pode vir depois de "Ensemble"

A questão do futuro tornou-se especialmente interessante porque "Ensemble" parece simultaneamente um ponto de chegada e o início de qualquer coisa ainda difícil de definir.

Os próprios Hourswill recusam afirmar que este álbum representa obrigatoriamente a direção que seguirão e Pedro Burt Costa chegou mesmo a brincar com a possibilidade de, um dia, se olhar para a discografia dos Hourswill e para "Ensemble" quase como uma peça à parte, um corpo estranho dentro do próprio catálogo.

José Bonito considera-o, por outro lado, o álbum dos Hourswill que mais se aproximou de alguns dos seus gostos pessoais enquanto ouvinte, embora isso não signifique que o próximo tenha de seguir a mesma linguagem. Aliás, a própria história da banda mostra que não existe obrigação de repetir uma solução apenas porque funcionou num determinado disco.

Há ainda bastante material que pode alimentar o que vier depois, já que dos 18 temas gravados nas sessões apenas oito formaram "Ensemble", permanecendo, portanto, dez composições fora do álbum publicado. Durante a apresentação desse material surgiram comentários sobre aquilo que poderá acontecer a seguir e até referências descontraídas a uma futura edição, mas essas frases não equivalem a uma data oficial de lançamento.

O dado mais interessante é a existência de uma relação assumida entre "Ensemble" e aquilo que poderá vir depois, com a banda a falar num verdadeiro "cordão umbilical" entre os trabalhos e na possibilidade de um futuro disco ajudar a compreender melhor "Ensemble", ao mesmo tempo que "Ensemble" poderá fornecer contexto para o que se seguir.

Essa ideia altera também a forma de olhar para as oito músicas publicadas em 2026, porque parte da estranheza, das mudanças e das escolhas que agora parecem inesperadas poderá adquirir outra leitura quando surgir o capítulo seguinte.

José Bonito chegou, aliás, a descrever "Ensemble", em tom de brincadeira, como um "sapato apertado musical", algo que pretende provocar algum desconforto e inquietação em quem o ouve. Esse desconforto não é tratado como defeito, mas como parte da experiência proposta.

Há também uma condição prática que permite aos Hourswill manter esta abordagem: os músicos não vivem profissionalmente da banda e encaram isso como uma forma de liberdade, pelo que, se uma composição precisar de 23 minutos, pode ter 23 minutos sem existir uma necessidade económica imediata de a reduzir para funcionar melhor em rádio, streaming ou playlists.

Essa liberdade cruza-se com uma reflexão iniciada anos antes sobre a perda do ritual de ouvir discos e que entretanto ganhou uma dimensão mais ampla, com os Hourswill a observarem criticamente a aceleração permanente do consumo cultural, a redução do tempo de atenção e o peso crescente dos algoritmos, conteúdos e plataformas na maneira como a música chega às pessoas.

Para a banda, contudo, isso não constitui um argumento para simplificar aquilo que faz, mas precisamente uma razão adicional para preservar a liberdade de composição. Os Hourswill aceitam que a sua música possa permanecer num nicho e que muitos ouvintes nunca lhe dediquem o tempo necessário, porque, se algumas pessoas pararem, ouvirem e retirarem alguma coisa daqueles discos, isso já é suficiente para justificar o processo.

É nesse ponto que "Ensemble" ganha um lugar muito particular na história dos Hourswill, porque, depois da densidade de "Inevitable", da mudança de perspetiva de "Harm Full Embrace" e da construção conceptual de "Dawn Of The Same Flesh", a banda chegou a um álbum que muda de língua, atravessa heavy metal, hard rock, progressivo, psicadelismo e outros territórios, recupera Fausto, constrói uma narrativa com quase 23 minutos e deixa dez músicas gravadas fora da edição.

Mais de quinze anos depois do início, os Hourswill têm quatro álbuns editados, uma formação que atravessou mudanças profundas e material suficiente para continuar a história. "Ensemble" abriu uma porta e talvez o mais interessante seja precisamente o facto de, aparentemente, nem os próprios Hourswill terem interesse em fechá-la escolhendo antecipadamente o destino.

Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto

6ª feira, das 20h às 23h

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