Anarchicks: história, discos e punk rock

78ª Edição do Força Bruta

Emissão: sexta-feira, 24 de julho de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Banda Anarchicks

Atualização
Já está disponível a entrevista com os Anarchicks no site do Força Bruta, no YouTube e no Spotify. Podes escutar a emissão completa no podcast do Força Bruta de 24 de julho de 2026.

As Anarchicks surgiram em Lisboa no final do verão de 2011 e transformaram uma base ligada ao rock e ao punk numa discografia aberta à eletrónica, ao funk e a diferentes formas de experimentação. Com três álbuns, três EPs, vários singles, mudanças de formação e concertos dentro e fora de Portugal, a banda construiu um percurso marcado pela criação coletiva, pela liberdade musical e por uma intervenção política cada vez mais direta.

Na sexta-feira, 24 de julho de 2026, as Anarchicks serão convidadas do Força Bruta, numa emissão em direto entre as 20h e as 23h, com a entrevista prevista para cerca das 21:30. A conversa deverá percorrer a origem da banda, as diferentes formações, a evolução da discografia, a dimensão política das músicas e o quarto álbum, que se encontra em preparação e contará com a participação de Deize Tigrona.

Sobre as Anarchicks, banda de rock, punk e eletrónica

As Anarchicks são uma banda portuguesa de rock formada em Lisboa em 2011. O punk teve um papel central nos primeiros passos, mas nunca funcionou como uma fronteira. Desde o início, a música absorveu elementos de pop, eletrónica, new wave, funk e outras linguagens, mudando de direção conforme as ideias e as pessoas envolvidas em cada fase.

A própria banda sempre recusou colocar o seu som dentro de uma única gaveta. O processo de composição nasceu de forma coletiva e espontânea, com as músicas a poderem partir de um ritmo, um riff, uma linha de baixo, uma ideia vocal ou uma improvisação. Essa forma de trabalhar permitiu que cada elemento interferisse no resultado e que os discos refletissem diferentes estados de espírito.

A intenção inicial de criar uma banda formada por mulheres foi assumida desde o nascimento das Anarchicks. Num circuito alternativo ainda fortemente dominado por homens, a banda procurou abrir o seu próprio espaço. Contudo, desde as primeiras entrevistas, deixou claro que pretendia ser reconhecida pela música e não apenas pela forma como a sua composição era apresentada.

Como nasceram as Anarchicks em 2011

A história começou no final do verão de 2011, quando Helena, conhecida como Synthetique e Priscila Devesa decidiram formar uma nova banda. Priscila conhecia Catarina Henriques, conhecida como Katari, e convidou-a para a bateria. A primeira sessão entre as três produziu imediatamente ideias e estruturas para novas músicas.

Faltava uma pessoa na guitarra para completar a formação. A vaga acabaria por ser ocupada por Adam d'Armada Moreira, então conhecido artisticamente como JD. Priscila assumiu a voz e os sintetizadores, Synthetique ficou ligada ao baixo e aos teclados, Katari ocupou a bateria e Adam assumiu a guitarra, com vários elementos da formação a contribuírem também com vozes e instrumentos adicionais.

A atividade começou rapidamente. Em novembro de 2011, as Anarchicks já estavam a gravar a primeira demonstração e poucos meses depois, entraram nos Black Sheep Studios para preparar o primeiro lançamento. A rapidez desse arranque refletia a química encontrada nos ensaios e uma vontade clara de levar as músicas para fora da sala.

O EP de estreia e o primeiro álbum "Really?!"

Anarchicks, EP Look What You Made Me DoEP "Look What You Made Me Do"

O primeiro registo das Anarchicks, o EP Look What You Made Me Do, foi lançado a 8 de março de 2012, Dia Internacional da Mulher. O trabalho reuniu quatro músicas, "Bored", "Endless Love", "Sunset Graveyard" e "Rockstars" e apresentou uma banda ainda muito próxima da energia imediata do punk, mas já interessada em sintetizadores, melodias pop e contrastes rítmicos.

"Rockstars" tornou-se um dos primeiros temas a chamar atenção para a banda. Durante 2012, as Anarchicks começaram a aumentar a presença em palco, passando por salas, eventos e festivais como o Jameson Urban Routes, no Musicbox e o Vodafone Mexefest. A exposição alcançada pelo EP permitiu preparar rapidamente um trabalho de maior dimensão.

O primeiro álbum, Really?!, foi editado a 21 de janeiro de 2013. Gravado nos Black Sheep Studios por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim, com mistura e masterização de Pedro Chamorra, o disco reuniu nove faixas e mostrou uma banda mais segura na combinação entre rock, punk, eletrónica e ritmos dançáveis.

Capa do primeiro álbum das Anarchicks, ReallyCapa do primeiro álbum das Anarchicks, "Really?!"

O caráter cru e direto de Really?! foi uma escolha consciente das Anarchicks. A banda procurou manter no disco um som próximo daquele que apresentava em concerto, evitando uma produção demasiado elaborada que criasse uma grande diferença entre a gravação e a atuação em palco. Essa abordagem refletia a forma imediata, simples e pouco dependente de artifícios com que as Anarchicks se apresentavam nesta primeira fase.

"Restraining Order" foi escolhido como primeiro avanço por representar essa energia direta e a estética sonora do álbum. "Dance" contou com a participação de Da Chick, numa colaboração que nasceu da proximidade entre as artistas e reforçou a ligação do disco à música de dança, sem retirar peso às guitarras e à bateria.

Really?! foi apresentado no Musicbox, em Lisboa, num concerto com a participação de Da Chick. Poucos meses depois, as Anarchicks chegaram ao palco principal do Super Bock Super Rock 2013, num cartaz que incluía Azealia Banks, Johnny Marr e Arctic Monkeys. Foi um dos momentos de maior exposição da primeira formação.

As Anarchicks entre a primeira mudança de voz e os palcos internacionais

Na segunda metade de 2013, Priscila Devesa saiu das Anarchicks. A banda decidiu continuar a atividade, abriu a procura por uma nova vocalista e apresentou Marta Lefay durante uma atuação no Festival Europa Sur, em Cáceres.

A entrada de Marta trouxe uma voz mais ligada ao rock e alterou a forma como as músicas anteriores eram interpretadas em palco. Esta fase coincidiu com uma circulação internacional mais regular. As Anarchicks fizeram a primeira parte de CSS em Lisboa, participaram no evento francês Masculin/Feminin com curadoria de Peaches e tocaram posteriormente na La Machine du Moulin Rouge, em Paris e no Theater der Welt, na Alemanha.

Em 2014, a banda publicou "Smashed", apresentado como um desenvolvimento alternativo de "Rockstars", com novas letras, nova voz e produção de Bruno Plattier. No mesmo ano surgiu "Psycholoop", tema que acabaria por ser recuperado no segundo álbum. Estes lançamentos funcionaram como uma ponte entre Really?! e uma fase musical mais elaborada.

"We Claim the Right to Rebel and Resist"

Capa do EP We Claim the RightCapa do EP digital "We Claim the Right", de 2015

A 18 de dezembro de 2015, as Anarchicks lançaram o EP digital We Claim the Right. As cinco músicas antecipavam uma abordagem mais frontal e politizada, apoiada numa produção mais densa e numa maior exploração das possibilidades instrumentais da banda.

O segundo álbum, We Claim the Right to Rebel and Resist, chegou a 27 de maio de 2016. O disco reuniu nove temas e desenvolveu o caminho aberto pelo EP, juntando composições como "Femme Fraktale", "Full Throttle", "Psycholoop" e "Take It and Leave It".

"Sloppy Seconds" contou com a participação de Peaches. A colaboração foi pensada durante a própria criação da música, deixando espaço para que a artista canadiana acrescentasse a sua intervenção ao tema antes da versão definitiva.


Capa do álbum We Claim the Right to Rebel and ResistÁlbum "We Claim the Right to Rebel and Resist", de 2016

O título do álbum funcionava como uma declaração. A liberdade individual, o direito à resistência e a recusa do conformismo ganharam maior presença nas letras e na comunicação da banda. Musicalmente, o disco também alargou o campo de ação das Anarchicks, combinando a energia punk com estruturas mais trabalhadas, sintetizadores, funk e diferentes variações de intensidade.

Foi igualmente nesta fase que Mariana Rosa se aproximou da formação como segunda guitarrista, acrescentando novas possibilidades às atuações e ao trabalho que seria desenvolvido nos anos seguintes.


As Anarchicks na transição para Rita Sedas

O EP Vive la Ressonance foi lançado a 7 de abril de 2017. Com cinco faixas, o trabalho voltou a afastar a banda de uma fórmula previsível. Incluiu "Rebus", "Out of Time" e "Black Box", uma versão de "Helter Skelter", dos Beatles e "Imortais", a primeira música das Anarchicks cantada em português.

Rita Sedas entra para as Anarchicks em 2017Rita Sedas entra para as Anarchicks em 2017

O lançamento coincidiu com outra mudança importante. Marta Lefay saiu da banda de forma amigável e Rita Sedas passou a ocupar o lugar de vocalista. A entrada de Rita não procurou reproduzir as interpretações anteriores. A nova voz abriu uma fase diferente, que acabaria por transformar também a escrita e a construção das músicas.

O primeiro lançamento desta etapa foi "No Friend", apresentado em 2018 como avanço para um novo álbum. O tema abordava a pressão exercida sobre quem é constantemente aconselhado a comportar-se, encaixar e corresponder às expectativas dos outros. A música marcou a chegada de Rita Sedas à discografia e preparou a mudança que seria aprofundada no terceiro longa duração.

"Loose Ends" e o terceiro álbum das Anarchicks

Capa do álbum Loose Ends de 2019Capa de "Loose Ends", de 2019

Loose Ends foi lançado a 17 de abril de 2019. O terceiro álbum reuniu nove músicas e foi o primeiro longa duração das Anarchicks com Rita Sedas na voz. A formação envolvida nesta fase incluía ainda Synthetique, Katari, Adam d'Armada Moreira e Mariana Rosa.

O disco integrou "No Friend", "Near Hear", "Gender Free", "Boomerang", "Now and Then" e "Lately I've Been Thinking Too Much Again", entre outros temas. "Marianne" contou com a participação de Mariana Rosa e reforçou a presença das guitarras na nova fase.

Em Loose Ends, o punk continuava a fornecer impulso e tensão, mas as composições passaram a reservar mais espaço para ambientes, melodias, pausas e diferentes formas de utilização da voz. O álbum não rompeu com o passado da banda, mas mostrou uma escrita mais ampla e menos dependente da urgência dos primeiros lançamentos.

A edição foi acompanhada por uma digressão nacional com Rock Caramelo Shivers e por concertos em Espanha. Ainda em 2019, as Anarchicks atuaram na Festa do Avante!, num ano intenso que seria interrompido pouco depois pela pandemia.

A fase atual das Anarchicks e o quarto álbum

A interrupção dos concertos alterou profundamente o funcionamento das Anarchicks. A banda sempre dependeu da presença física, dos ensaios conjuntos, da improvisação e da leitura imediata das reações entre os seus elementos. Apesar dessa dificuldade, o período de afastamento acabou por alimentar novas composições.

No final de 2020, as Anarchicks revelaram que os meses de estúdio e ensaios estavam a dar origem a um disco muito interventivo. O quarto álbum começou, assim, a crescer durante a pandemia, refletindo acontecimentos políticos e sociais que a banda sentia necessidade de abordar de forma mais direta.

As gravações avançaram por fases. Nessa etapa, Mariana Rosa acrescentou o seu trabalho ao material que já estava composto, enquanto Adam d'Armada Moreira colaborou à distância depois de se ter mudado para a Suécia em 2020. O método permitiu desenvolver cada elemento separadamente, embora fosse diferente do processo coletivo e presencial utilizado nos discos anteriores.

O primeiro sinal público desta fase foi "No Freedom Under Fascist Rules", lançado a 25 de junho de 2021. Sem recorrer a metáforas, o tema assumiu uma posição clara contra o fascismo e em defesa da liberdade, da diversidade, da igualdade e do direito à felicidade.

Em abril de 2022, a banda publicou "Dare to Think", prolongando a atividade discográfica enquanto o quarto álbum continuava a ser trabalhado. Nos anos seguintes, Inês Matos, conhecida como Inóspita, juntou-se à formação na guitarra, enquanto Mariana Rosa deixou de aparecer na configuração pública mais recente.

Atualmente, as Anarchicks são apresentadas com Rita Sedas na voz, Synthetique no baixo, Catarina "Katari" Henriques na bateria e Adam d'Armada Moreira e Inóspita nas guitarras. A presença de Adam liga esta fase à formação original, enquanto a entrada de Inóspita acrescenta uma nova guitarra ao processo de transformação que o quarto álbum atravessou.

No início de 2026, as Anarchicks anunciaram que o novo álbum estava quase pronto e confirmaram uma participação de Deize Tigrona. Ainda não foram divulgados publicamente o título, o alinhamento completo ou a data de edição, pelo que o disco permanece como o próximo grande capítulo da história da banda.

As Anarchicks estão também confirmadas para a edição comemorativa dos 50 anos da Festa do Avante!, marcada para os dias 4, 5 e 6 de setembro de 2026. O regresso ao festival acontece sete anos depois da atuação realizada durante a digressão de Loose Ends e já numa fase em que o quarto álbum se aproxima da conclusão.

É neste ponto do percurso que a banda chega ao Força Bruta. A entrevista de 24 de julho deverá ligar a formação iniciada em 2011 à fase atual, passando pelas mudanças de voz, pela transformação da discografia, pelo funcionamento coletivo e por um novo álbum desenvolvido ao longo de vários anos.

Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto

6ª feira, das 20h às 23h


Artigo atualizado em 22-07-2026 às 14:50

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