Anarchicks: história, discos e punk rock

Emissão: sexta-feira, 24 de julho de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Banda Anarchicks

As Anarchicks surgiram em Lisboa, no final do verão de 2011, e transformaram uma base ligada ao rock e ao punk numa discografia aberta à eletrónica, ao funk e a diferentes formas de experimentação. Com três álbuns, três EPs, vários singles, mudanças de formação e concertos dentro e fora de Portugal, a banda construiu um percurso marcado pela criação coletiva, pela liberdade musical e por uma intervenção política cada vez mais direta.

Na sexta-feira, 24 de julho de 2026, as Anarchicks serão convidadas do Força Bruta, numa emissão em direto entre as 20h e as 23h, com a entrevista prevista para cerca das 21:30. A conversa deverá percorrer a origem da banda, as diferentes formações, a evolução da discografia, a dimensão política das músicas e o quarto álbum, que se encontra em preparação e contará com a participação de Deize Tigrona.

Sobre as Anarchicks, banda de rock, punk e eletrónica

As Anarchicks são uma banda portuguesa de rock formada em Lisboa em 2011. O punk teve um papel central nos primeiros passos, mas nunca funcionou como uma fronteira. Desde o início, a música absorveu elementos de pop, eletrónica, new wave, funk e outras linguagens, mudando de direção conforme as ideias e as pessoas envolvidas em cada fase.

A própria banda sempre recusou colocar o seu som dentro de uma única gaveta. O processo de composição nasceu de forma coletiva e espontânea, com as músicas a poderem partir de um ritmo, um riff, uma linha de baixo, uma ideia vocal ou uma improvisação. Essa forma de trabalhar permitiu que cada integrante interferisse no resultado e que os discos refletissem diferentes estados de espírito.

A formação exclusivamente feminina foi uma decisão consciente no momento da criação das Anarchicks. Num circuito alternativo ainda fortemente dominado por homens, a banda quis abrir o seu próprio espaço. Contudo, desde as primeiras entrevistas, deixou claro que pretendia ser reconhecida pela música e não apenas pelo género das suas integrantes.

Como nasceram as Anarchicks em 2011

A história começou no final do verão de 2011, quando Helena, conhecida como Synthetique, e Priscila Devesa decidiram formar uma nova banda. Priscila conhecia Catarina Henriques, conhecida como Katari, e convidou-a para a bateria. A primeira sessão entre as três produziu imediatamente ideias e estruturas para novas músicas.

Faltava uma guitarrista para completar a formação. A vaga acabaria por ser ocupada por Ana Moreira, então apresentada como JD. Priscila assumiu a voz e os sintetizadores, Synthetique ficou ligada ao baixo e aos teclados, Katari ocupou a bateria e JD assumiu a guitarra, com várias integrantes a contribuírem também com vozes e instrumentos adicionais.

A atividade começou rapidamente. Em novembro de 2011, as Anarchicks já estavam a gravar a primeira demonstração e poucos meses depois, entraram nos Black Sheep Studios para preparar o primeiro lançamento. A rapidez desse arranque refletia a química encontrada nos ensaios e uma vontade clara de levar as músicas para fora da sala.

O EP de estreia e o primeiro álbum "Really?!"

Anarchicks, EP Look What You Made Me DoEP "Look What You Made Me Do"

O primeiro registo das Anarchicks, o EP Look What You Made Me Do, foi lançado a 8 de março de 2012, Dia Internacional da Mulher. O trabalho reuniu quatro músicas, "Bored", "Endless Love", "Sunset Graveyard" e "Rockstars", e apresentou uma banda ainda muito próxima da energia imediata do punk, mas já interessada em sintetizadores, melodias pop e contrastes rítmicos.

"Rockstars" tornou-se um dos primeiros temas a chamar atenção para a banda. Durante 2012, as Anarchicks começaram a aumentar a presença em palco, passando por salas, eventos e festivais como o Jameson Urban Routes, no Musicbox, e o Vodafone Mexefest. A exposição alcançada pelo EP permitiu preparar rapidamente um trabalho de maior dimensão.

Capa do 1º álbum das Anarchicks, ReallyCapa do 1º álbum das Anarchicks, "Really"

O primeiro álbum, Really?!, foi editado a 21 de janeiro de 2013. Gravado nos Black Sheep Studios por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim, com mistura e masterização de Pedro Chamorra, o disco reuniu nove faixas e mostrou uma banda mais segura na combinação entre rock, punk, eletrónica e ritmos dançáveis.

"Restraining Order" foi escolhido como primeiro avanço, enquanto "Dance" contou com a participação de Da Chick. A colaboração nasceu da proximidade entre as artistas e acrescentou ao álbum uma ligação mais evidente à música de dança, sem retirar peso às guitarras e à bateria.

Really?! foi apresentado no Musicbox, em Lisboa, num concerto com a participação de Da Chick. Poucos meses depois, as Anarchicks chegaram ao palco principal do Super Bock Super Rock 2013, num cartaz que incluía Azealia Banks, Johnny Marr e Arctic Monkeys. Foi um dos momentos de maior exposição da primeira formação.

As Anarchicks entre a primeira mudança de voz e os palcos internacionais

Na segunda metade de 2013, Priscila Devesa saiu das Anarchicks. A banda decidiu continuar a atividade, abriu a procura por uma nova vocalista e apresentou Marta Lefay durante uma atuação no Festival Europa Sur, em Cáceres.

A entrada de Marta trouxe uma voz mais ligada ao rock e alterou a forma como as músicas anteriores eram interpretadas em palco. Esta fase coincidiu com uma circulação internacional mais regular. As Anarchicks fizeram a primeira parte de CSS em Lisboa, participaram no evento francês Masculin/Feminin, com curadoria de Peaches, e tocaram posteriormente na La Machine du Moulin Rouge, em Paris, e no Theater der Welt, na Alemanha.

Em 2014, a banda publicou "Smashed", apresentado como um desenvolvimento alternativo de "Rockstars", com novas letras, nova voz e produção de Bruno Plattier. No mesmo ano surgiu "Psycholoop", tema que acabaria por ser recuperado no segundo álbum. Estes lançamentos funcionaram como uma ponte entre Really?! e uma fase musical mais elaborada.

"We Claim the Right to Rebel and Resist"

EP We Claim the RightCapa do EP digital "We Claim the Right", 2015

A 18 de dezembro de 2015, as Anarchicks lançaram o EP digital We Claim the Right. As cinco músicas antecipavam uma abordagem mais frontal e politizada, apoiada numa produção mais densa e numa maior exploração das possibilidades instrumentais da banda.

O segundo álbum, We Claim the Right to Rebel and Resist, chegou a 27 de maio de 2016. O disco reuniu nove temas e desenvolveu o caminho aberto pelo EP, juntando composições como "Femme Fraktale", "Full Throttle", "Psycholoop" e "Take It and Leave It".

"Sloppy Seconds" contou com a participação de Peaches. A colaboração foi pensada durante a própria criação da música, deixando espaço para que a artista canadiana acrescentasse a sua intervenção ao tema antes da versão definitiva.


EP We Claim the RightÁlbum "We Claim the Right to Rebel and Resist", 2016

O título do álbum funcionava como uma declaração. A liberdade individual, o direito à resistência e a recusa do conformismo ganharam maior presença nas letras e na comunicação da banda. Musicalmente, o disco também alargou o campo de ação das Anarchicks, combinando a energia punk com estruturas mais trabalhadas, sintetizadores, funk e diferentes variações de intensidade.

Foi igualmente nesta fase que Mariana Rosa se aproximou da formação como segunda guitarrista, acrescentando novas possibilidades às atuações e ao trabalho que seria desenvolvido nos anos seguintes.


As Anarchicks na transição para Rita Sedas

O EP Vive la Ressonance foi lançado a 7 de abril de 2017. Com cinco faixas, o trabalho voltou a afastar a banda de uma fórmula previsível. Incluiu "Rebus", "Out of Time" e "Black Box", uma versão de "Helter Skelter", dos Beatles, e "Imortais", a primeira música das Anarchicks cantada em português.

EP We Claim the RightRita Sedas entra para as Anarchicks em 2017

O lançamento coincidiu com outra mudança importante. Marta Lefay saiu da banda de forma amigável e Rita Sedas passou a ocupar o lugar de vocalista. A entrada de Rita não procurou reproduzir as interpretações anteriores. A nova voz abriu uma fase diferente, que acabaria por transformar também a escrita e a construção das músicas.

O primeiro lançamento desta etapa foi "No Friend", apresentado em 2018 como avanço para um novo álbum. O tema abordava a pressão exercida sobre quem é constantemente aconselhado a comportar-se, encaixar e corresponder às expectativas dos outros. A música marcou a chegada de Rita Sedas à discografia e preparou a mudança que seria aprofundada no terceiro longa duração.

"Loose Ends" e o terceiro álbum das Anarchicks

Capa do álbum Loose Ends de 2019Capa de "Loose Ends", de 2019

Loose Ends foi lançado a 17 de abril de 2019. O terceiro álbum reuniu nove músicas e foi o primeiro longa duração das Anarchicks com Rita Sedas na voz. A formação envolvida nesta fase incluía ainda Synthetique, Katari, Adam d'Armada Moreira e Mariana Rosa.

O disco integrou "No Friend", "Near Hear", "Gender Free", "Boomerang", "Now and Then" e "Lately I've Been Thinking Too Much Again", entre outros temas. "Marianne" contou com a participação de Mariana Rosa e reforçou a presença das guitarras na nova fase.

Em Loose Ends, o punk continuava a fornecer impulso e tensão, mas as composições passaram a reservar mais espaço para ambientes, melodias, pausas e diferentes formas de utilização da voz. O álbum não rompeu com o passado da banda, mas mostrou uma escrita mais ampla e menos dependente da urgência dos primeiros lançamentos.

A edição foi acompanhada por uma digressão nacional com Rock Caramelo Shivers e por concertos em Espanha. Ainda em 2019, as Anarchicks atuaram na Festa do Avante!, num ano intenso que seria interrompido pouco depois pela pandemia.

A fase atual das Anarchicks e o quarto álbum

A interrupção dos concertos alterou profundamente o funcionamento das Anarchicks. A banda sempre dependeu da presença física, dos ensaios conjuntos, da improvisação e da leitura imediata das reações entre as integrantes. Apesar dessa dificuldade, o período de afastamento acabou por alimentar novas composições.

No final de 2020, as Anarchicks revelaram que os meses de estúdio e ensaios estavam a dar origem a um disco muito interventivo. O quarto álbum começou, assim, a crescer durante a pandemia, refletindo acontecimentos políticos e sociais que a banda sentia necessidade de abordar de forma mais direta.

As gravações avançaram por fases. Nessa etapa, Mariana Rosa acrescentou o seu trabalho ao material que já estava composto, enquanto Adam d'Armada Moreira colaborou à distância depois de se ter mudado para a Suécia em 2020. O método permitiu desenvolver cada elemento separadamente, embora fosse diferente do processo coletivo e presencial utilizado nos discos anteriores.

O primeiro sinal público desta fase foi "No Freedom Under Fascist Rules", lançado a 25 de junho de 2021. Sem recorrer a metáforas, o tema assumiu uma posição clara contra o fascismo e em defesa da liberdade, da diversidade, da igualdade e do direito à felicidade.

Em abril de 2022, a banda publicou "Dare to Think", prolongando a atividade discográfica enquanto o quarto álbum continuava a ser trabalhado. Nos anos seguintes, a formação apresentada em palco passou a reunir Rita Sedas na voz, Synthetique no baixo, Inês Matos, conhecida como Inóspita, na guitarra, e Catarina "Katari" Henriques na bateria.

No início de 2026, as Anarchicks anunciaram que o novo álbum estava quase pronto e confirmaram uma participação de Deize Tigrona. Ainda não foram divulgados publicamente o título, o alinhamento completo ou a data de edição, pelo que o disco permanece como o próximo grande capítulo da história da banda.

As Anarchicks estão também confirmadas para a edição comemorativa dos 50 anos da Festa do Avante!, marcada para os dias 4, 5 e 6 de setembro de 2026. O regresso ao festival acontece sete anos depois da atuação realizada durante a digressão de Loose Ends e já numa fase em que o quarto álbum se aproxima da conclusão.

É neste ponto do percurso que a banda chega ao Força Bruta. A entrevista de 24 de julho deverá ligar a formação iniciada em 2011 à fase atual, passando pelas mudanças de voz, pela transformação da discografia, pelo funcionamento coletivo e por um novo álbum desenvolvido ao longo de vários anos.

Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto

6ª feira, das 20h às 23h

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