Peixaranha: história, Agora Pensa e estreia no Força Bruta
81ª Edição do Força Bruta

Os Peixaranha surgiram em Almada em 2025, mas a história que está por trás da banda atravessa várias décadas de música pesada, hardcore e underground nacional. Paulo Ventura "Barba", Hugo Frazão "Fraze", Ricardo "Milho" e Paulo Cercas voltaram a cruzar caminhos depois de experiências em diferentes projetos e transformaram essa ligação num novo ponto de partida, com raízes fortes no hardcore e espaço para punk, rock, rap, groove e outras influências acumuladas ao longo dos anos.
Na sexta-feira, 28 de agosto de 2026, os Peixaranha são a banda convidada do Força Bruta. A conversa deverá passar pelo reencontro dos músicos, pela origem do projeto, pelo EP de estreia "Agora Pensa", pelas mensagens que atravessam as cinco músicas, pela estreia em palco e pelo material novo que já começou a aparecer no repertório da banda.
Sobre os Peixaranha, banda de Almada com raízes no hardcore
Os Peixaranha formaram-se oficialmente em julho de 2025, em Almada. O projeto começou entre Paulo Ventura "Barba" e Hugo Frazão "Fraze", dois músicos que já partilhavam uma longa história e que, na verdade, andavam há vários anos a falar na possibilidade de voltar a fazer alguma coisa juntos. A ideia foi sendo adiada até surgir uma altura em que a vontade de regressar a uma sala de ensaios coincidiu com uma necessidade crescente de escrever sobre aquilo que viam à sua volta.
O contexto social e político teve um peso real nesse arranque. A normalização do discurso de ódio, a discriminação, a injustiça e a apatia aparecem repetidamente na forma como a própria banda explica o nascimento dos Peixaranha. A intenção não era recuperar simplesmente uma banda antiga ou revisitar o passado. Era voltar a fazer música com uma razão concreta para existir, aquilo que os próprios resumem como voltar à garagem para fazer barulho com mensagem.
Depois de Barba e Fraze começarem a desenvolver as primeiras ideias, juntou-se Ricardo "Milho". A escolha recuperava uma ligação importante, já que os três tinham tocado juntos nos Aheadpain. Milho tinha passado alguns anos afastado da atividade regular em bandas, embora continuasse ligado à música, e encontrou nos Peixaranha a oportunidade de voltar à sala de ensaios. Pouco depois entrou Paulo Cercas, completando a formação.
- Hugo Frazão "Fraze", voz.
- Ricardo "Milho", guitarra.
- Paulo Ventura "Barba", bateria.
- Paulo Cercas, baixo.
A entrada de Cercas foi também um dos primeiros momentos decisivos. Fraze recorda o primeiro ensaio com os quatro como a altura em que perceberam que havia realmente uma banda. O baixo deu outra expressão às músicas que já estavam a ser trabalhadas e confirmou que aquela formação funcionava.
Uma história construída muito antes de 2025
Embora os Peixaranha sejam uma banda recente, as ligações pessoais entre os seus membros remontam, segundo os próprios, a 1991 ou 1992, ainda nos tempos de escola. Desde então, foram mantendo contacto e cruzando-se dentro de uma cena onde amizades, bandas e concertos se foram sobrepondo ao longo de mais de três décadas.
Barba passou por nomes como Last Hope, Pestox, FP, Aheadpain, Ruthless Breed e Campo Minado. Fraze esteve nos Human Choice e Aheadpain. Milho traz no percurso Hate Machine, Funeral Party, Aheadpain, Crab Slackers e Living Dead Act, enquanto Paulo Cercas passou por Veteranos MSHC, Utopia e Campo Minado.
Entre todos estes projetos, os Aheadpain ocupam um lugar especialmente importante na origem dos Peixaranha porque já tinham juntado Barba, Fraze e Milho. Os músicos situam aproximadamente essa fase em meados dos anos 90, por volta de 1995, 1996 e 1997. Quando Barba e Fraze começaram a pensar numa nova banda, chamar Milho permitiu recuperar uma relação musical construída muitos anos antes sem transformar o novo projeto numa repetição do passado.
Essa diferença é essencial para perceber os Peixaranha. A banda não se apresenta como revival nem como reencontro nostálgico. A experiência acumulada serve antes para colocar no mesmo espaço influências que foram entrando na vida dos quatro músicos ao longo de décadas.
A própria memória da cena de Almada e da Margem Sul também pesa nessa história. Os músicos recordam o final dos anos 90 e o início dos anos 2000 como um período em que havia concertos frequentes e uma convivência próxima entre hardcore, hip hop, rock, industrial e metal. Falam também do Movimento Marginal Hardcore como algo que ia além de quem tocava ou ouvia hardcore, reunindo pessoas que se reconheciam naquela comunidade.
A Margem Sul continua a ser assumida como parte importante da forma como veem o mundo e fazem música. Os Peixaranha relacionam essa vivência com as dificuldades de uma zona durante muito tempo marcada pela condição de cidade dormitório, pela proximidade de Lisboa sem necessariamente ter as mesmas oportunidades e por uma forte união entre quem cresceu nesse meio. Mesmo quando partem da revolta ou da insatisfação, dizem procurar encaminhar a mensagem para algo positivo, porque no fim é a esperança que fica.
Peixaranha: a história por trás do nome
O nome Peixaranha foi escolhido por ser forte, fácil de memorizar e por ter uma ligação muito particular às memórias dos músicos. A banda contou que, na zona onde viviam durante os anos 90, "Peixaranha" era também o nome usado para um aerossol que algumas pessoas inalavam pelos seus efeitos alucinogénios.
Foi Barba quem colocou o nome em cima da mesa. Nem todos ficaram imediatamente convencidos. Paulo Cercas admite ter sido o último dos quatro a encaixar a escolha, embora tenha acabado por se tornar um defensor do nome.
É uma história contada pelos próprios músicos e que acabou por dar ao nome uma ligação imediata ao tempo e ao lugar de onde vêm. Ao mesmo tempo, a banda associa a palavra à ideia de uma mensagem que chega e deixa marca.
A componente visual também nasceu dentro dos próprios Peixaranha. Ricardo "Milho" desenvolveu o logótipo e a linha gráfica, incluindo a utilização do verde intenso que acompanha a banda. Para os músicos, som, mensagem e imagem devem funcionar em conjunto e transmitir a sensação de que existe intenção por trás da forma como cada elemento é apresentado.
Das primeiras ideias ao EP "Agora Pensa"
Quando os quatro músicos começaram a trabalhar em conjunto, nem tudo partiu de uma página em branco. "Mind Check", "Liberdade (Fight For It)" e "Ecos de Revolta" já existiam como ideias trazidas por Barba e Fraze. Ao entrarem na sala de ensaios, essas versões iniciais foram desmontadas e reconstruídas com Milho e Cercas até ganharem a forma que acabaria por chegar ao primeiro EP.
Esse processo tornou-se uma das características da composição dos Peixaranha. Uma ideia pode começar num dos elementos, mas passa depois pelo trabalho dos quatro. A própria banda utiliza a expressão "#Peixaranhastyle" para descrever informalmente essa transformação coletiva.
O trabalho é feito sobretudo com os quatro dentro da mesma sala. Em junho de 2026, os Peixaranha estavam a ensaiar praticamente duas vezes por semana, experimentando ideias, discutindo possibilidades, recuando quando necessário e voltando a trabalhar as músicas. É um método deliberadamente presencial numa altura em que muitas bandas constroem temas através da troca de gravações feitas individualmente em casa.
Também as letras seguem uma lógica coletiva. Fraze assume uma parte importante da escrita, mas os restantes membros podem trazer textos e ideias. O material é discutido pela banda e acaba normalmente por passar pelas mãos de Fraze antes de ficar fechado, já que é ele quem vai interpretar as palavras e precisa de as adaptar à sua forma de cantar e sentir a mensagem. Para os Peixaranha, uma letra só fica verdadeiramente pronta quando existe aprovação de todos.
"Mind Check" ocupa um lugar especial nesta fase inicial. Foi a primeira música criada pelos Peixaranha, a primeira que tocavam nos ensaios e acabou também escolhida para abrir o primeiro trabalho. Em março de 2026, cerca de dois meses antes da edição do EP, a música já começava a ser mostrada publicamente pela banda.
As gravações aconteceram no Estúdio Margem Sul, no fim de semana do 25 de Abril de 2026. A coincidência com a data não foi planeada pelo seu simbolismo. A banda procurava simplesmente um fim de semana de abril em que os músicos e o estúdio estivessem disponíveis e acabou por ser aquele o momento possível.
O processo foi rápido e direto. Não houve pré-produção. Os Peixaranha entraram no estúdio e captaram o essencial das cinco músicas em cerca de dois dias, regressando depois em mais duas sessões ao final do dia para terminar a mistura.
A gravação e mistura ficaram a cargo de Francisco Santos, "Xico", alguém que conhece os músicos há décadas e que já tinha cruzado caminho com eles em vários projetos. Antes das sessões, Xico chegou a ouvir a banda num ensaio e deu algumas sugestões. Durante a gravação, essa participação continuou, com ideias sobre guitarras, vozes, baixo e diferentes partes das músicas.
Os próprios Peixaranha descrevem Francisco Santos como uma espécie de quinto elemento durante a gravação de "Agora Pensa". A relação anterior permitiu que tivesse espaço para participar criativamente num processo em que a banda ainda estava a descobrir como aquelas músicas iriam ganhar corpo fora da sala de ensaios.
A masterização foi depois entregue a Gonçalo Peixoto, no GP Mastering.
"Agora Pensa": cinco músicas com linguagens diferentes
Capa do EP "Agora Pensa".
"Agora Pensa" foi disponibilizado no Bandcamp a 12 de maio de 2026 e chegou posteriormente às restantes plataformas através da DistroKid, onde surge também a data de 14 de maio. Trata-se de uma edição independente e do primeiro EP dos Peixaranha.
O trabalho reúne cinco faixas: "Mind Check", "Liberdade (Fight For It)", "Keep It Simple", "Jogos do Poder" e "Ecos de Revolta". Apesar de partilharem uma base pesada, as músicas não procuram repetir a mesma fórmula.
"Mind Check" cruza rock e rap com um andamento marcado pelo groove e por uma componente rítmica que a própria banda associa a um forte "bounce". A letra parte da ideia de pensamento crítico e confronta manipulação, discurso de ódio e a facilidade com que determinadas mensagens são repetidas sem reflexão.
É também daqui que nasce diretamente o título "Agora Pensa". Mais do que uma frase de efeito, funciona como um convite para questionar aquilo que é apresentado como verdade, procurar informação e construir uma opinião própria. Para a banda, o objetivo não passa por obrigar quem ouve a chegar à mesma conclusão, mas por incentivar uma decisão consciente em vez de seguir automaticamente slogans, notícias falsas ou mensagens construídas para gerar reação imediata.
"Liberdade (Fight For It)" abranda o ritmo e entra num ambiente que os próprios Peixaranha chegaram a comparar a um western. A música fala da liberdade de pensar, falar, escolher e viver, recordando que direitos conquistados não devem ser tratados como algo inevitavelmente garantido.
A faixa inclui a participação de Carina Frazão, irmã de Hugo Frazão. A colaboração recupera também uma ligação musical anterior, já que os dois tinham partilhado o palco nos tempos dos Human Choice.
"Keep It Simple" é a faixa mais curta e aquela que a banda identifica como mais próxima do punk rock. Em vez de se concentrar diretamente no comentário político, fala sobre avançar, simplificar decisões e não ficar parado enquanto o tempo passa.
Em "Jogos do Poder", a crítica volta a ser frontal. Guerra, interesses, corrupção e decisões tomadas por quem está distante das consequências ocupam o centro da letra. A música questiona o papel de quem exerce poder e coloca outros a pagar o preço dessas decisões.
"Ecos de Revolta" fecha o EP e mostra um lado mais interior. É a faixa mais longa do trabalho e aborda inquietação, desgaste, vontade de desistir e a necessidade de continuar. A revolta deixa aqui de ser apenas social ou política e passa também pela luta individual.
Essa diferença também ajuda a perceber a abordagem dos Peixaranha às letras. Nem tudo tem de ser uma declaração política direta, mas a banda considera importante que exista sempre uma mensagem com a qual se reconheça. Em "Ecos de Revolta", por exemplo, essa mensagem passa pela capacidade de se levantar quando tudo parece estar no fundo, enquanto "Keep It Simple" procura afastar o ruído e recentrar a atenção no que realmente importa.
Os Peixaranha ainda estão a descobrir até onde podem levar o som
Apesar das raízes fortes no hardcore, os Peixaranha evitam reduzir a banda a uma única definição. No primeiro EP aparecem punk, rock, rap, groove, passagens mais atmosféricas e diferentes níveis de agressividade.
Fraze aponta o hip hop old school e o boom bap entre as suas referências mais fortes, enquanto os restantes músicos chegam de percursos e gostos diferentes. A banda reconhece no groove e no hip hop alguns denominadores comuns, mas deixa espaço para que cada composição siga caminhos diferentes.
Essa variedade não surgiu como tentativa de demonstrar versatilidade a qualquer custo. Quando entram na sala de ensaios, os quatro dizem não partir de uma ideia predefinida sobre o resultado final. Experimentam e deixam que as influências de cada elemento alterem a música, desde que o resultado faça sentido para todos e a mensagem continue presente.
Os próprios músicos já reconheceram que é cedo para escolher uma única canção como representação definitiva do som dos Peixaranha. Com apenas um EP editado, essa procura continua aberta e admitem que esse retrato poderá tornar-se mais claro daqui a um ou dois anos, quando houver novo material gravado.
Também nas letras existe diversidade, embora alguns temas reapareçam. Pensamento crítico, liberdade, manipulação, guerra, injustiça e responsabilidade coletiva convivem com questões mais pessoais como ansiedade, desgaste e necessidade de continuar. O português domina a escrita, com utilização pontual do inglês em títulos, refrões e expressões.
A estreia em palco e as primeiras músicas fora de "Agora Pensa"
O primeiro concerto documentado dos Peixaranha aconteceu a 3 de julho de 2026, na Blackbox do Cine-Teatro de Corroios. A atuação serviu como apresentação de "Agora Pensa" e marcou a estreia da banda perante público.
A noite contou com Selecta Naggafire, que não se limitou à primeira parte do evento. Existe também registo de uma colaboração com os Peixaranha durante o concerto.
Antes da estreia, a banda já tinha explicado que não iria limitar o concerto às cinco faixas do EP. Existiam músicas que tinham ficado de fora das gravações de "Agora Pensa", além de material mais recente que continuava a nascer nos ensaios.
Para além das cinco faixas que constam no EP, apareceram no setlist "Let's Move" e "We Ready", duas músicas que ainda não foram oficialmente editadas.
O momento atual dos Peixaranha
Em agosto de 2026, os Peixaranha chegam ao Força Bruta com pouco mais de um ano de existência, mas com uma história que não começou em 2025. Há mais de três décadas de ligações entre os músicos, um passado comum em diferentes bandas do underground, um primeiro EP construído coletivamente e um repertório que já começa a crescer para além desse lançamento.
A banda continua ativa e a trabalhar em música nova, mas até ao momento não existe anúncio oficial de um segundo EP, álbum ou novo single. Também não foi divulgada uma nova entrada em estúdio ou uma data para o próximo lançamento.
Em junho, os Peixaranha revelaram ainda que estavam a considerar a possibilidade de acrescentar um quinto elemento à formação. A ideia não passava por duplicar simplesmente guitarra, baixo ou bateria, mas por encontrar alguém capaz de introduzir elementos que atualmente não existem na banda, com referências a DJ, samples e outras possibilidades instrumentais.
Essa possibilidade continuava, nessa altura, sem qualquer decisão fechada e sem um músico anunciado. Em agosto de 2026, os Peixaranha continuam publicamente apresentados como o mesmo quarteto que iniciou o projeto, pelo que a entrada de um quinto elemento deve ser entendida apenas como uma hipótese explorada pela banda.
Essa distinção é importante também em relação à música nova. Os Peixaranha já têm novas composições e algumas chegaram mesmo ao palco, mas o passo seguinte ainda não foi formalmente anunciado.
É precisamente nesse ponto que acontece a presença da banda no Força Bruta de 28 de agosto. A conversa vai procurar regressar ao momento em que Barba e Fraze começaram a pensar num novo projeto, perceber como Milho e Cercas transformaram essas músicas dentro da sala de ensaios, revisitar a criação de "Agora Pensa" e olhar para aquilo que já começou a surgir depois do EP.
Mais do que recuperar histórias antigas, a passagem dos Peixaranha pelo programa acontece numa altura em que a banda ainda está a escrever os primeiros capítulos do próprio percurso.
Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto
6ª feira, das 20h às 23h
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- As entrevistas são também transmitidas em vídeo no Facebook do Força Bruta por volta das 21:30.
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