Heavenwood: Ricardo Dias e The Tarot Of The Bohemians II

A entrevista com Heavenwood acontece no dia 3 de julho de 2026, em direto no Força Bruta, pouco tempo depois do lançamento de "The Tarot Of The Bohemians - Part II". À conversa estará Ricardo Dias, para falar do álbum que fecha o ciclo dos 22 Arcanos Maiores e de uma das fases mais intensas do universo Heavenwood.
Mas esta não será apenas uma conversa sobre um novo disco. Para perceber o peso de "The Tarot Of The Bohemians - Part II", é preciso olhar para o caminho que levou Ricardo Dias até aqui.
Em 2022, Ricardo Dias sobreviveu a um acidente quase fatal. Esse episódio mudou tudo. Quando a poeira assentou, restava uma pergunta que não se calava: e agora, Heavenwood?
A resposta chega em 2026, dez anos depois da primeira parte de "The Tarot Of The Bohemians". Lançado no dia 12 de junho, "The Tarot Of The Bohemians - Part II" não surge apenas como continuação de um conceito. Surge como conclusão de uma travessia pessoal, artística e simbólica.
Os Heavenwood e a carta da Morte: transformação, não fim
No Tarot, a carta da Morte raramente significa o que parece. Significa transformação. Passagem. O fecho de uma porta que abre outra. Foi isso que aconteceu com Ricardo Dias depois de 2022. Uma recuperação física longa, decisões irreversíveis e a necessidade visceral de terminar algo que ainda estava em aberto.
"The Tarot Of The Bohemians - Part II" não é apenas a continuação de um disco. É a conclusão de uma travessia. Uma obra gravada no Lucky Cat Studio, em Portugal, misturada e masterizada nos Vamacara Studios, em França, por Niko HK Krauss. O resultado é mais cinematográfico, mais intenso, sem nunca perder a melancolia gótica que acompanha os Heavenwood desde o início.
O single "Death" ganha aqui um peso especial. Não funciona apenas como tema de apresentação do álbum, mas como uma chave simbólica para perceber a fase que Ricardo Dias atravessou até chegar a este disco.
Heavenwood: três décadas de metal gótico e death metal melódico
Os Heavenwood nasceram no início dos anos 90 em Vila Nova de Gaia, ainda com o nome Disgorged. Era outro mundo. As maquetes exigiam preparação real, as gravações eram caras e não havia facilidades digitais para corrigir erros depois. Quem entrava em estúdio levava responsabilidade nos ombros.
Os primeiros ensaios chegaram a acontecer num pátio, por baixo do tabuleiro da Ponte D. Luís, onde quem passava podia ouvir a banda e, por vezes, parar para assistir. Antes dos discos, das editoras e das digressões, havia esse lado quase artesanal: amigos, instrumentos, vontade de tocar e uma cidade a servir de cenário.
Disgorged, viriam a tornar-se Heavenwood.
A ligação de Ricardo Dias ao heavy metal começou no final dos anos 80, quando imagens de concertos o marcaram para sempre. Desde cedo, associou música pesada a uma dimensão visual e emocional que mais tarde se refletiria nos Heavenwood.
As demos "As Illusive As A Dream" (1994) e "Emotional Wound" (1995), ainda como Disgorged, partiam de uma base death metal mas já revelavam uma inclinação melódica e sombria. Quando surgiu a oportunidade de editar o primeiro álbum pela Massacre Records, a editora alemã considerou que o nome Disgorged não correspondia à música que estava a nascer. A sonoridade já apontava para outro território. Mais melódico, mais emocional, menos preso à agressividade inicial.
Sem internet, a divulgação fazia-se por correio, através de maquetes enviadas para revistas, fanzines e contactos fora de Portugal. O apoio do programa "Metal Radical", na antiga Rádio Energia, ajudou também a dar exposição à banda numa fase em que era difícil para um nome do Porto chegar a outros públicos.
O nome Heavenwood surgiu de "Judith Heavenwood", tema da segunda demo. A partir daí, representou a linguagem que Ricardo Dias queria construir: pesada, melancólica, melódica, aberta a uma leitura mais profunda da música.
"Diva" e "Swallow": os primeiros álbuns dos Heavenwood e a afirmação internacional
Capa do álbum Diva dos Heavenwood, lançado em 1996
A estreia discográfica aconteceu em 1996 com "Diva", gravado na Alemanha depois do contrato com a Massacre Records. Para uma banda portuguesa da época, viajar para gravar fora do país e trabalhar com uma editora alemã era um salto enorme. O álbum chegou ao mercado japonês, algo raro no metal português, e projetou os Heavenwood para fora das fronteiras nacionais.
Dois anos depois, "Swallow" (1998) aprofundou a ligação entre peso, melodia e atmosferas escuras, com participações de Liv Kristine (Theatre Of Tragedy) e Kai Hansen (Gamma Ray, Helloween). A passagem pelo Wacken Open Air nesse mesmo ano reforçou o alcance internacional da banda.
Para uma banda portuguesa dos anos 90, esse percurso representou uma afirmação rara. Contrato com editora estrangeira, digressões europeias, entrevistas fora de Portugal. Um caminho que ajudou a abrir portas para as gerações seguintes.
Discos como "Redemption" (2008) e "Abyss Masterpiece" (2011) mantiveram os Heavenwood ligados a uma escrita intensa e dramática. Este último, inspirado na Marquesa da Alorna, aproximou a banda de uma dimensão mais orquestral e sinfónica.
Excursão portuguesa ao Wacken Open Air na Alemanha, em agosto de 1998.
(Foto: Cameraman Metálico)
Heavenwood e o ciclo de "The Tarot Of The Bohemians": os Arcanos Maiores em música
The Tarot Of The Bohemians (parte 1) dos Heavenwood.
Em 2016, os Heavenwood editaram "The Tarot Of The Bohemians", a primeira parte de um díptico conceptual inspirado no universo do Tarot e nos escritos herméticos de Gérard Encausse, conhecido como Papus.
O conceito assenta no tratado "Le Tarot des Bohémiens" e na leitura simbólica dos Arcanos Maiores. Mas não é ornamento misterioso. É ferramenta para pensar a existência, a dor, a transformação e a continuidade. Cartas como Death, The Lightning-Struck Tower, The Moon, The Sun, The Judgement, The Fool e The World trabalham temas de colapso, dualidade, esperança, julgamento, recomeço e conclusão.
Gérard Encausse (Papus) em 1893.
A referência a Gérard Encausse, Papus, acrescenta profundidade ao conceito. O interesse não se limita ao ocultista, mas também ao médico, ao filantropo e ao pensador humanista.
Há também uma ideia importante na forma como Ricardo Dias trabalha este universo: as músicas não procuram impor uma única leitura. O Tarot funciona como ponto de partida para que cada ouvinte encontre o seu próprio reflexo nas cartas, nas letras e nas atmosferas. A mesma canção pode tocar de forma diferente consoante o momento de vida de quem a escuta.
O novo álbum dos Heavenwood: "The Tarot Of The Bohemians - Part II" e a travessia de Ricardo Dias
Capa de "The Tarot Of The Bohemians - Part II", de 2026.
Heavenwood nunca foi movido por calendário. Os discos surgiam quando existia uma razão real para compor, escrever e gravar. Desta vez, essa razão passou pelo compromisso de Ricardo Dias consigo próprio e com quem acompanha este percurso desde os anos 90.
Editado pela Mighty Music, o disco chegou em vinil preto, CD e formato digital, incluindo uma edição em vinil azul limitada a 300 cópias. Musicalmente, apresenta uma construção variada. Momentos de peso, melodias fortes, vozes limpas em registo grave, passagens mais extremas e camadas vocais que ampliam a carga emocional.
A arte visual de Naya Kotko prolonga a leitura espiritual e simbólica do disco, funcionando como porta de entrada para a atmosfera esotérica da obra. A capa, com a figura encapuzada junto ao mar, fala por si.
Ricardo Dias e a fase atual dos Heavenwood: colaboradores e o regresso aos palcos
Eduardo Sinatra, responsável pelas baterias em The Tarot Of The Bohemians - Part II.
Depois das mudanças dos últimos anos, Heavenwood surge fortemente ligado à visão de Ricardo Dias, que assumiu a condução criativa num formato mais individual, contando com músicos de sessão e colaborações específicas.
Entre essas colaborações está Eduardo Sinatra, responsável pelas baterias no novo álbum. A presença de baterias reais reforça o lado humano do disco e contrasta com uma abordagem excessivamente digital, sobretudo numa obra onde o detalhe emocional e a intensidade física têm um papel central.
A ligação à agência Allegro Talent Music aponta para uma vontade de devolver o universo Heavenwood aos palcos. Está em preparação um espetáculo especial para meados de setembro, num local simbólico do Porto, que deverá combinar música e artes visuais, incluindo esculturas desenvolvidas por um escultor de Leça da Palmeira.
Heavenwood no Força Bruta em direto: entrevista sobre o novo álbum
A presença dos Heavenwood no Força Bruta em direto surge no momento certo: o novo álbum já pertence aos ouvintes, o ciclo dos Arcanos Maiores está completo e há perguntas importantes sobre palco, receção internacional e próximos passos.
Quando foi nosso convidado a 20 de dezembro de 2024, Ricardo Dias ajudou-nos a percorrer a história dos Heavenwood desde a raiz ainda ligada a Disgorged até à afirmação de uma linguagem mais melódica e própria. Essa conversa ganha agora uma nova leitura. O álbum que então ainda era uma travessia criativa em aberto está finalmente cá fora.
A conversa deverá passar sobretudo pelo momento atual, pelo lançamento de "The Tarot Of The Bohemians - Part II", pelo caminho que levou à conclusão deste álbum e pela forma como esta nova etapa pode abrir espaço para o futuro do projeto.
Porque no Tarot, quando uma carta se vira, outra se revela. E o ciclo dos 22 Arcanos Maiores, agora fechado, deixa em aberto a pergunta que sempre moveu os Heavenwood: e agora?
Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto
6ª feira, das 20h às 23h
- Live stream aqui no site.
- Acompanhar no Twitch ou na Live no TikTok.
- Ouvir no site da All Stars Radio ou na App All Stars Radio.
- As entrevistas são também transmitidas em vídeo no Facebook do Força Bruta por volta das 21:30.
Artigo atualizado em 17-06-2026 às 4:32.
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