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Thrownness: biografia, Marrow e nova fase

87ª Edição do Força Bruta

Emissão: sexta-feira, 16 de outubro de 2026, 20:00 (hora de Portugal)

Thrownness, banda portuguesa de atmospheric sludge e post-metal, junto à costa rochosa.

Os Thrownness são uma banda de Lisboa formada em 2021, situada entre o atmospheric sludge, post-metal, doom e música experimental, com composições extensas onde peso, dissonância, repetição e passagens atmosféricas fazem parte da mesma linguagem. A biografia dos Thrownness é marcada por dois EPs separados por dois anos, mas nascidos do mesmo conjunto inicial de seis composições, por profundas mudanças de formação e por uma reconstrução que alterou significativamente a forma como esse material chegou ao segundo disco.

Na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, os Thrownness são os convidados do Força Bruta. A conversa vai passar pela origem e história da banda, pelos primeiros anos, pela criação de Marrow, pelo período em que o projeto chegou perto de desaparecer, pela reconstrução que conduziu a Marrow Part II: A Fire Through The Ether e pela fase que começa agora, depois de concluído um ciclo musical cuja escrita remonta aos primeiros anos dos Thrownness.

Sobre os Thrownness, banda de atmospheric sludge e post-metal

Os Thrownness surgiram em Lisboa, em 2021. Entre os primeiros membros documentados encontram-se Kévin Guimet na guitarra e voz, Mike Olivares no baixo e Duarte Dias na bateria, sendo Kévin o único músico que atravessa todas as fases conhecidas da banda.

Em 2023, Miguel dos Santos entrou como segundo guitarrista, completando a formação que viria a gravar o primeiro EP. Miguel trazia um percurso anterior nos Impera, enquanto Mike e Duarte estavam também ligados aos Orum, inserindo os Thrownness numa rede lisboeta onde sludge, doom e outras vertentes da música pesada experimental se cruzam frequentemente entre músicos e bandas.

Os primeiros anos deixaram poucos registos públicos de ensaios, atuações ou gravações, mas existe um dado decisivo para compreender o percurso que se seguiu: as seis composições que acabariam divididas entre os dois EPs foram concebidas como partes do mesmo corpo de trabalho. Assim, quando a banda começou a preparar a estreia discográfica, a história de Marrow já se estendia para além das três músicas que seriam editadas em 2024.

Biografia dos Thrownness: Marrow e a estreia discográfica

Marrow, primeiro EP dos Thrownness, editado em abril de 2024.Marrow, primeiro EP dos Thrownness, editado em abril de 2024.

O primeiro lançamento chegou a 6 de abril de 2024 com o single Mirror's Infer e, treze dias depois, a banda editou de forma independente Marrow, composto por Waves and Trenches, Mirror's Infer e At The Thrownness.

As três faixas mostraram desde logo uma banda pouco interessada em estruturas convencionais. At The Thrownness ultrapassa os quinze minutos e, ao longo do EP, riffs lentos e pesados convivem com repetição, dissonância, construção gradual e mudanças entre violência e introspeção, aproximando sludge, doom e post-metal de uma escrita mais atmosférica e narrativa.

Marrow foi gravado, misturado e masterizado por João Galrito, em Lisboa, através de uma abordagem essencialmente semi-live, pensada para preservar a interação entre os músicos e o impacto físico das composições tocadas em conjunto, em vez de construir em estúdio uma versão excessivamente fragmentada ou polida. Kévin Guimet ficou também responsável pelo artwork.

Embora o público tivesse recebido apenas três músicas, as três composições que mais tarde formariam o segundo EP já estavam estruturalmente escritas. A intenção era completar um conjunto de seis temas dividido em duas partes, mas, pouco depois da edição de Marrow, a própria formação começou a desfazer-se.

Os Thrownness depois de Marrow: crise e reconstrução

O período posterior ao primeiro EP tornou-se um dos capítulos mais importantes da história dos Thrownness. Mike Olivares, Duarte Dias e Miguel dos Santos acabaram por sair, houve outras alterações de formação e, num determinado momento, Kévin ficou praticamente sozinho com o projeto, ao ponto de a continuidade da banda ter estado realmente em causa.

Em vez de abandonar as três músicas que faltavam, Kévin decidiu fazer mais uma tentativa para reconstruir os Thrownness. Tiago Rodrigues entrou na guitarra, enquanto Itamar Levi surge documentado na bateria durante o período de transição de 2024. André Martins viria depois a assumir um papel particularmente importante nesta fase e, com a entrada de Micas no baixo e voz, formou-se o núcleo que trabalharia diretamente sobre o material destinado à segunda parte.

André Martins, também ligado aos Skyllar e Moloch, tinha inicialmente aceite ajudar os Thrownness durante cerca de um ano, mas a sua participação acabou por ir muito além de uma colaboração temporária. Tocou com a banda em palco, participou criativamente na transformação das músicas e gravou as baterias que seriam editadas em Marrow Part II.

Foi precisamente nesta reconstrução que as três composições antigas começaram a ganhar outra forma. As estruturas criadas por Kévin permaneceram como base, porém Tiago, Micas e André passaram a intervir nos arranjos, na dinâmica e em diferentes partes instrumentais, fazendo com que o resultado final mantivesse a origem das músicas sem ficar preso à forma como tinham sido inicialmente imaginadas.

Uma segunda parte transformada por uma nova formação

Essa diferença é particularmente visível em Coil Wielder. A secção final da música não fazia simplesmente parte da versão original fechada por Kévin, tendo surgido espontaneamente durante o trabalho com a nova formação, num dos exemplos mais claros de como o material começou a incorporar a personalidade dos músicos que reconstruíram os Thrownness.

Atone Into Rage, por sua vez, tornou-se uma das composições mais representativas desta fase e é a favorita de Kévin entre as seis músicas do ciclo Marrow. O tema cruza agressividade, dissonância, força dos riffs e experimentação, enquanto o título e a letra estabelecem uma ligação consciente a Dylan Thomas e ao universo de Do not go gentle into that good night.

Já White Wind ocupa um espaço diferente. Foi concebida de forma mais simples e melancólica antes de recuperar peso na segunda metade e tornou-se a composição emocionalmente mais difícil para Kévin interpretar. A música funciona essencialmente como uma despedida, expondo de forma particularmente direta a saudade, a ausência e a memória.

Por isso, a distância musical entre os dois EPs não resulta de uma mudança completa de género, mas sobretudo da forma como as mesmas bases passaram a ser trabalhadas. A segunda metade apresenta mais interação entre os músicos, maior densidade, arranjos mais desenvolvidos e contrastes dinâmicos mais acentuados, mantendo ao mesmo tempo a escrita longa e narrativa que já estava presente em Marrow.

Thrownness: Marrow Part II e A Fire Through The Ether

Antes da edição do segundo EP, os Thrownness apresentaram Coil Wielder como single a 15 de abril de 2026. A 4 de maio chegou Marrow Part II: A Fire Through The Ether, desta vez através da Raging Planet, mas a editora não esteve na origem do trabalho: a banda terminou o material sem saber se existiria interesse de uma editora e só depois apresentou o resultado à Raging Planet.

O EP reúne Atone Into Rage, Coil Wielder e White Wind. Foi gravado, misturado e masterizado por André Isídro, com as vozes captadas por Kamuya e André Martins na bateria, enquanto Kévin voltou a assumir a componente visual associada ao lançamento.

A gravação manteve deliberadamente a abordagem semi-live utilizada em Marrow, apesar da mudança de formação e de equipa técnica. O objetivo continuou a ser preservar a dinâmica das composições e a interação entre os músicos, especialmente importante em temas construídos através de repetição, acumulação de tensão e mudanças graduais de intensidade.

O subtítulo A Fire Through The Ether tem também um significado concreto dentro do disco. A imagem parte da ideia de que o fogo, embora momentâneo, deixa uma marca no espaço e no tempo, sendo essa construção relacionada por Kévin com Heraclito e com a imagem do relâmpago que governa o universo.

Marrow Part II: A Fire Through The Ether, editado pela Raging Planet em maio de 2026.Marrow Part II: A Fire Through The Ether, editado pela Raging Planet em maio de 2026.

A chama funciona igualmente como um gesto de memória e reverência por quem desapareceu, ligando o conceito visual do EP àquilo que emocionalmente atravessa grande parte das composições: perda, luto, ausência, memória, espiritualidade, mortalidade e procura de significado. Em vez de apresentar a dor como um percurso simples até à resolução, as músicas mantêm muitas vezes essa tensão aberta.

As influências assumidas ajudam a perceber a amplitude dessa linguagem. Neurosis e Cult of Luna ocupam um lugar especialmente importante, acompanhados por Isis, Amenra, Blut Aus Nord, Gorguts e Lantlôs, enquanto referências como Joy Division, Asylum Party e Leonard Cohen mostram que o universo musical e emocional procurado pelos Thrownness se estende muito para além do metal.

História dos Thrownness em palco

O registo atualmente recuperado da atividade em palco dos Thrownness recua pelo menos a 18 de maio de 2024, quando a banda participou na Matiné de Peso, nos Estúdios Nirvana. A partir de 2025, a atividade torna-se mais regular e acompanha precisamente o período em que a nova formação estava a trabalhar sobre as músicas destinadas ao segundo EP.

Nesse ano, os Thrownness passaram pelo PostLab, em Ílhavo, pela Matiné Psicadélica no Cine Incrível, pelo FriarFest, pela Cooperativa Mula e pelo Vortex LX. Na Matiné Psicadélica partilharam ainda o cartaz com os Orum, onde tocavam os antigos membros Mike Olivares e Duarte Dias, enquanto no Vortex, em outubro, André Martins continuava na bateria dos Thrownness e tocou também com os Skyllar na mesma noite.

Thrownness ao vivo no FriarFest 2025. Thrownness ao vivo no FriarFest 2025. Foto: tonidorock.com

A atividade de 2025 incluiu ainda o Triple Angst Benefit, na Disgraça, em novembro. Esta sequência de concertos é importante porque mostra que a transformação que mais tarde se ouviria em Marrow Part II já estava a ser trabalhada e apresentada em palco antes da edição do segundo EP.

Em 2026, os Thrownness participaram no Bastard's Fest, poucos dias depois da edição de Coil Wielder, e a 2 de maio realizaram uma listening party de Marrow Part II, onde André Martins teve também um momento dedicado à explicação de detalhes da produção das baterias. Seguiram-se atuações no Doom Thrower Vol. 1, no Side B Rocks e no BOTA.

Um dos momentos de maior exposição da banda aconteceu a 25 de setembro de 2026, no Lisboa Ao Vivo. Depois do cancelamento dos brasileiros The Cross, os Thrownness foram chamados para o Under The Doom e ficaram responsáveis pela abertura da primeira noite do festival, às 18h00, apresentando material dos dois EPs.


Thrownness em 2026: formação atual e próximo capítulo

A formação atual dos Thrownness é composta por:

  • Kévin Guimet, guitarra e voz
  • Tiago Rodrigues, guitarra
  • Micas, baixo e voz
  • João Fernandes, bateria

João Fernandes passou a integrar a banda em 2025 e assumiu a bateria de forma permanente, embora não participe na gravação de Marrow Part II, realizada ainda com André Martins. A sua entrada marca a passagem do período em que André estava a ajudar temporariamente os Thrownness para a formação que a banda mantém em outubro de 2026.

A edição de Marrow Part II: A Fire Through The Ether fechou finalmente o conjunto de seis composições iniciado antes da estreia discográfica. Durante esse percurso, as músicas sobreviveram à saída de quase toda a formação que gravou Marrow, atravessaram um período em que o próprio futuro da banda esteve em causa e acabaram transformadas por músicos que não estavam presentes quando tinham sido inicialmente escritas.

É isso que torna a fase seguinte particularmente interessante. Qualquer novo corpo de composições poderá ser o primeiro criado pelos Thrownness depois de terminado o ciclo original de seis músicas, já sem a necessidade de regressar a material escrito antes da primeira edição. Até agora, a banda não anunciou publicamente um terceiro EP, um álbum de longa duração, um novo single ou novas gravações, deixando em aberto tanto o formato como a direção do próximo passo.

Depois de uma biografia marcada por formação, mudanças profundas, quase dissolução e reconstrução, os Thrownness chegam ao final de 2026 com uma formação estável, dois EPs publicados e o primeiro grande ciclo da sua história encerrado. É também desse ponto que parte a conversa no Força Bruta de 16 de outubro: perceber de onde vieram os Thrownness, o que aconteceu entre os dois Marrow, como a banda conseguiu reconstruir-se e transformar material antigo numa nova fase e, sobretudo, o que existe agora para criar depois de finalmente fechar esse capítulo.

Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto

6ª feira, das 20h às 23h

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