Zurrapa: biografia, história, discos e novo álbum
86ª Edição do Força Bruta

Os Zurrapa surgiram em Viseu em 2017 e construíram um percurso assente num punk & roll direto, cantado em português, onde a crítica social, o humor, a provocação e a cultura de bar convivem desde os primeiros ensaios. António Fonseca, Nuno Mendonça e Pedro Sales mantêm a formação original mais de nove anos depois e chegam a 2026 com sete registos de estúdio, o mais recente dos quais é Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha!, editado a 26 de setembro, poucos dias antes da passagem pelo Força Bruta.
No dia 2 de outubro, os Zurrapa são os convidados do Força Bruta, numa conversa que vai percorrer a origem da banda, os primeiros anos em Viseu, a evolução do chamado punk xunga, a discografia construída desde 2017, as histórias de estrada e de estúdio e o novo capítulo aberto por Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha!, o primeiro trabalho da banda editado também em vinil.
Sobre os Zurrapa, banda de punk & roll
Os Zurrapa formaram-se em fevereiro de 2017, em Viseu, juntando António Fonseca na guitarra e voz, Nuno Mendonça no baixo e Pedro Sales na bateria. A formação manteve-se desde então e continua a ser a mesma em 2026, algo particularmente relevante numa biografia que já atravessa mais de nove anos de discos, concertos e atividade independente.
A direção musical definiu-se praticamente de imediato, já que ao segundo ensaio o caminho estava traçado: rock & roll cru, rápido e cada vez mais próximo do punk. O próprio nome surgiu dessa lógica. "Zurrapa" remete para vinho de fraca qualidade e acabou por servir de paralelo para o carácter cru e pouco polido que a banda quis preservar desde o início.
Essa opção por uma abordagem musical direta não resulta de falta de experiência. António Fonseca trazia já um percurso longo ligado ao rock e ao punk de Viseu, enquanto Nuno Mendonça vinha de diferentes experiências entre o punk e o metal. Pedro Sales também aparecia associado a vários projetos da região antes e durante o percurso dos Zurrapa.
Os membros dos Zurrapa antes da banda
António Fonseca já estava ativo nos Nexo em 1997, onde assumia guitarra e voz. A banda gravou a demo Aquilo Que Te Vai Na Alma em 1998 e dois anos depois, editou Querer Falar, antes de terminar atividade em 2001. Esse percurso coloca António no circuito rock e punk de Viseu cerca de duas décadas antes do aparecimento dos Zurrapa.
Mais tarde, no projeto Dafonseca, voltou a mostrar um lado particularmente autónomo. Na demo Almas Sem Paz, editada em 2019, surge creditado em voz e todos os instrumentos. Ao longo dos anos, o seu nome apareceu ainda associado a outros projetos da cena viseense.
Nuno Mendonça é natural de São Miguel, nos Açores, e cresceu rodeado de música, primeiro através dos discos existentes em casa e mais tarde, através do rock, punk e metal. Além da atividade como músico, trabalha como professor de música e manteve diferentes projetos em paralelo com os Zurrapa.
Entre eles estão os Basalto, formados em 2015 e orientados para terrenos mais pesados ligados ao stoner, doom e metal, os TVMVLO, criados no início de 2020, e os Spiral Sputnik. Essa diversidade ajuda a perceber que a abordagem direta dos Zurrapa é uma escolha própria desta banda e não o limite musical dos seus membros.
Pedro Sales, por sua vez, surge associado a projetos como Inercia, Verniz, Arco da Velha, On A Plain e Luna Celta. A documentação disponível sobre essas participações é menos detalhada, mas mostra que também chegou aos Zurrapa com experiência anterior na cena musical regional.
Os primeiros anos dos Zurrapa
A primeira composição que Nuno Mendonça identifica como verdadeiramente pertencente aos Zurrapa é "Escravo do Poder". A música entrou logo no primeiro registo e continuava a aparecer nos concertos em 2026, ligando diretamente o início da banda ao repertório atual.
O primeiro lançamento chegou a 26 de agosto de 2017. Na Taberna do B.A. era um EP de três temas, formado pela faixa que lhe dá o nome, "Escravo do Poder" e "Zurrapa". A edição ficou ligada ao ambiente do Old Skull Inn, em Viseu, espaço associado aos primeiros tempos da banda e à cultura de bar que rapidamente passou também para as letras.
O lançamento do EP aconteceu no universo do Old Skull Inn, mas o primeiro concerto que aparece anunciado de forma clara como estreia dos Zurrapa em Viseu surgiu apenas a 14 de outubro de 2017, na Fora de Rebanho, num cartaz com The Psycho Tramps e Facto Macaco. No final desse mesmo ano, a banda participou ainda na Assembleia do Metal, ligada ao Milagre Metaleiro.
Já em janeiro de 2018, os Zurrapa passaram pelo Mangualde HardMetalFest, num cartaz onde figuravam nomes como Acid Reign, Picture e God Macabre. Nuno Mendonça viria mais tarde a recordar essa atuação como um dos momentos marcantes dos primeiros anos da banda.
De "Zurrapa Som Sistema" à afirmação do punk xunga
Zurrapa em concerto na Fora de Rebanho, em Viseu, em 2017.
O segundo EP, Zurrapa Som Sistema, chegou a 23 de junho de 2018 e desenvolveu os temas que começavam a definir as letras da banda. "Quando a tua fome aperta", "Putas, vinho e rock 'n' roll", "São todos uns anormais", "Zeca o arrumador" e "Queimei o casaco c'um morango" misturavam crítica social, humor, quotidiano e provocação, enquanto "Na Taberna do B.A." regressava como faixa bónus.
Foi também nesta fase que a designação "Punk n' Roll Xunga" começou a acompanhar os Zurrapa de forma mais regular. Não existiu uma mudança brusca de género, mas antes uma forma mais precisa de descrever aquilo que a banda já fazia desde os primeiros ensaios.
Zurrapa Som Sistema foi gravado e misturado por Rui Costa, que assinou também a produção em conjunto com os Zurrapa nos Estúdios Singular. As letras ficaram creditadas a António Fonseca e a música à banda, enquanto Ricardo Sousa e João Esteves trataram da masterização.
A componente visual envolveu igualmente pessoas próximas dos músicos. Rafael Sales assinou a ilustração, António Fonseca tratou do design e Pedro Sales ficou responsável pela fotografia.
Durante 2019, a atividade em palco continuou a crescer. Em janeiro, os Zurrapa tocaram no Moto Clube da Régua num cartaz com os Mata-Ratos e em abril, participaram num evento apresentado como "Zurrapa com Taberna", em Canas de Senhorim. Nesse verão, surgiu ainda um vídeo de "Putas, Vinho & Rock'n'Roll" construído a partir de imagens captadas em diferentes concertos.
2020, pandemia e o primeiro longa-duração dos Zurrapa
Capa de (Des)Governo No País Das Maravilhas, primeiro longa-duração dos Zurrapa, editado em 2020.
O ano de 2020 começou com a banda preparada para dar um passo importante. (Des)Governo No País Das Maravilhas seria o terceiro registo de estúdio, mas o primeiro longa-duração dos Zurrapa, depois dos dois EPs anteriores.
A apresentação estava inicialmente prevista para 3 de abril de 2020, mas a pandemia obrigou ao cancelamento do concerto. O disco acabou por ficar disponível no Bandcamp a 16 de abril, numa altura em que a banda tinha já material físico produzido, mas deixara de poder apresentá-lo nos palcos.
O alinhamento juntava músicas novas a outras que já vinham a ser testadas perante público. "Esta Vida É Uma Merda" era usada na abertura dos concertos, "Toureiros Assassinos" remontava aos primeiros tempos da banda e "Afogado Em Cerveja", "Nós Não Cantamos Canções De Amor" e "Que Avance A Destruição" também já faziam parte do repertório.
A gravação, inicialmente pensada como um processo rápido, prolongou-se durante cerca de seis meses. Rui Costa voltou a trabalhar com os Zurrapa nos Estúdios Singular e o disco abriu espaço a convidados, com elementos ligados ao Milagre Metaleiro a participarem nos coros de "Pindelo Metaleiro".
Já "Cucaracha Da Cerveja" foi pensada desde a composição com instrumentação adicional e acabou por receber trompete de Rita Arcão e acordeão de Filipe Soares.
O primeiro avanço escolhido foi "Hey! Quero Trotil!", curiosamente uma das últimas músicas a ficar concluída. Seguiram-se vídeos para temas como "Que Avance A Destruição", "Toureiros Assassinos" e "Cavacú".
"Lambe-me o CUbo" e a criação durante o confinamento
Sem possibilidade de manter a atividade normal de concertos, os Zurrapa acabaram por transformar o confinamento em matéria para um segundo longa-duração no mesmo ano. Lambe-me o CUbo foi escrito, gravado e preparado durante esse período, acabando por ser editado a 7 de novembro de 2020.
O disco é formado por sete músicas intercaladas por sete intros e inclui "Fica em Casa ou Levas nos Cornos", criada e gravada de forma caseira durante a quarentena. Rafael Sales voltou a colaborar com a banda, desta vez na capa.
Poucas semanas depois, em dezembro, apareceu também "Pai Natal, O Putanheiro" através de um vídeo. A música só entraria num longa-duração em 2022, mas já circulava publicamente dois anos antes.
Nuno Mendonça viria a resumir 2020 como um ano em que os Zurrapa editaram dois discos, um single e duas músicas apresentadas apenas através de vídeo, um volume de material particularmente elevado para uma fase em que praticamente toda a atividade de palco estava bloqueada.
Esse período revelou igualmente a proximidade da banda ao circuito independente. No final de 2020, Na Taberna do B.A. e Zurrapa Som Sistema já estavam completamente esgotados e os últimos exemplares disponíveis chegaram a ser colocados em leilão para ajudar uma sala de concertos afetada pelas restrições.
Os Zurrapa preparam "O Triunfo dos Porcos"
As limitações prolongaram-se durante 2021 e a banda chegou a recusar propostas de concertos sentados por considerar que esse formato não fazia sentido para a dinâmica dos Zurrapa. A prioridade passou então pelo novo material.
Em setembro desse ano, Nuno Mendonça dizia que as músicas estavam cerca de 98% concluídas, que o título já estava escolhido e que o artwork se encontrava pensado, enquanto a gravação deveria começar entre o final de setembro e o início de outubro.
Esse trabalho conduziu a O Triunfo dos Porcos, editado a 9 de abril de 2022. "Estou-me A Cagar (P'ra Vocês)" foi apresentado como primeiro avanço e o alinhamento incluiu ainda "Todos Os Filhos Da Puta São Iguais", "A Vingança De Jaqueline Rose", "John Wayne Gacy", "Canabis No Meu Quintal", "Pai Natal, O Putanheiro" e "Hino Do Clube União Micaelense", entre outros temas.
O processo de composição continuou essencialmente ligado à sala de ensaio, mas nem tudo estava fechado antes da gravação. "A Vingança De Jaqueline Rose", por exemplo, tomou forma praticamente já durante o primeiro dia de registo das guitarras.
Com o disco concluído, Nuno considerava O Triunfo dos Porcos o melhor trabalho que os Zurrapa tinham feito até então. Era uma avaliação pessoal do próprio baixista, mas mostrava a satisfação da banda com o resultado depois de dois anos marcados pela pandemia.
"Hino Do Clube União Micaelense" tem um contexto particularmente pessoal para Nuno Mendonça. Natural de São Miguel e ligado ao União Micaelense desde novo, o baixista levou para os Zurrapa uma adaptação do hino do clube, originalmente composto por Luís Alberto Bettencourt.
O álbum foi apresentado em Viseu com Acesso de Raiva e Drunkards Noia e marcou o regresso gradual da banda àquilo que mais tinha sido condicionado nos dois anos anteriores: os concertos.
Porque o palco continua no centro dos Zurrapa
Zurrapa no Croka's Rock, em Castelo de Paiva, em 2026.
A relação dos Zurrapa com os concertos influencia diretamente a forma como as músicas são construídas. Para Nuno Mendonça, uma composição pode estar gravada e publicada e continuar, de certa forma, incompleta enquanto não for testada perante público, por isso refrões, dinâmica e estruturas são muitas vezes pensados também a partir da reação esperada em palco.
Essa abordagem ajuda a explicar a preferência por músicas curtas, diretas e sem excesso de ornamentação. A evolução dos Zurrapa não passa pelo virtuosismo técnico, mas por pequenas diferenças nos arranjos, na composição, no processo de trabalho e em participações pontuais.
A atividade em palco prosseguiu nos anos seguintes e em 2023, os Zurrapa passaram pelo Bajonca Rock Fest. Em julho desse mesmo ano tocaram também no Cais Agosto, em São Roque do Pico, nos Açores, uma passagem com significado particular para Nuno Mendonça por representar um regresso ao arquipélago onde cresceu e começou a construir a sua relação com a música.
Foi também numa deslocação ao Pico que surgiu uma das histórias que acabaria transformada em música. Os Zurrapa conheceram uma personagem local que inicialmente chegaram a confundir com um elemento da GNR, acabaram a beber e conversar com ele e passaram a ouvir episódios da sua vida. Parte dessas histórias viria a alimentar "Kiss Kiss Banga Banga", incluindo a própria voz do homem na introdução do tema.
Entre os concertos que ficaram particularmente marcados na memória da banda está também uma passagem pelo Riverstone. A atuação acabou com palha espalhada pelo recinto, público em cima do palco, pessoas a embater nos pratos da bateria e a setlist rasgada e atirada fora logo no início. Foi ainda nesse concerto que desapareceu o garrafão que acompanhava os Zurrapa, posteriormente substituído por uma réplica, já que o original nunca regressou.
Embora os Zurrapa assumam claramente uma raiz punk, a banda tornou-se presença regular em cartazes de metal e nunca mostrou grande preocupação com essa separação de géneros. Ao longo dos anos, os próprios músicos têm defendido que punk e heavy metal partilham muita da mesma árvore genealógica e que a componente festiva dos seus concertos pode funcionar tão naturalmente num festival de metal como num cartaz exclusivamente punk.
"Manual de Incitação a uma Vida Boçal"
Em 2024, os Zurrapa alteraram ligeiramente a forma de preparar novo material. Em vez de criarem músicas entre ensaios do repertório habitual, interromperam esse processo e concentraram-se exclusivamente nas novas composições, começando por aquilo que Nuno Mendonça descreveu como os "esqueletos" dos temas.
Durante a preparação chegou a circular a indicação de que o trabalho teria dez faixas, mas a versão final cresceu e Manual de Incitação a uma Vida Boçal, editado a 23 de março de 2024, acabou por apresentar 13 músicas e uma intro.
O próprio título partiu de Nuno Mendonça e nasceu da forma como o baixista olha para uma contradição da sociedade atual: existe hoje um acesso quase imediato a enormes quantidades de informação, mas na sua perspetiva isso nem sempre se traduz em mais conhecimento ou pensamento crítico. Nuno relacionou essa ideia também com a experiência como professor, observando a facilidade com que hoje qualquer informação pode ser procurada num telemóvel ou tablet, ao mesmo tempo que conhecimentos básicos parecem por vezes perder espaço.
Essa ideia passa também pela abertura do disco. Depois da intro surge "Lá Lá Lá", construída como resposta a quem prefere ignorar aquilo que não quer ouvir, dando continuidade ao conceito apresentado imediatamente antes.
O alinhamento inclui "Lá Lá Lá", "Beber P'ra Esquecer", "Lítio", "Queremos Uma Festa Punk", "Governados Por Cabrões", "Live Fast, Die Drunk", "Um Mundo Sem Paz", "Kiss Kiss Banga Banga", "Umas Botas E Um Fuzil", "Sem Saia Nem Soutien", "P'ra Manter As Ilusões", "A Tua Navalha" e "A Valsinha Do Pilota".
O ciclo de divulgação começou com "Lítio" e prosseguiu com "Governados Por Cabrões". A banda destacou posteriormente o impacto deste segundo tema no YouTube, tanto pelas visualizações como pela chegada de novos subscritores.
"Queremos Uma Festa Punk" foi tocada pela primeira vez no concerto de apresentação do disco e a reação foi suficientemente imediata para a banda considerar desde logo que o refrão poderia transformá-la numa presença habitual nos concertos.
Já "Live Fast, Die Drunk" funciona como um tributo assumido aos Motörhead. António Fonseca, que coloca a banda entre as suas referências de longa data, construiu a letra em inglês a partir de títulos de músicas dos Motörhead, tentando encaixá-los de forma a formar um texto com sentido.
"Kiss Kiss Banga Banga" nasceu da já referida passagem pelo Pico. As histórias presentes na música partiram do homem que os músicos conheceram durante essa viagem, enquanto o título surgiu a partir de uma dupla de DJs chamada Kiss Kiss Bang Bang e da forma particular como aquela personagem pronunciava o nome. O áudio da sua voz acabou por ficar integrado na própria música.
Também "A Valsinha Do Pilota" tem uma origem muito concreta. Os Zurrapa foram tocar a um casamento cujo noivo era conhecido por Pilota e receberam um pedido pouco habitual para uma banda de punk & roll: abrir a atuação com uma valsa para os noivos dançarem. A música foi criada para a ocasião, António Fonseca inventou a letra num registo de brincadeira e o tema acabou posteriormente gravado e incluído no disco.
"Um Mundo Sem Paz" surgiu, por sua vez, num contexto marcado pelos conflitos internacionais que dominavam as notícias na altura. Pedro Sales destacava-a entre as suas preferidas do álbum, sobretudo pela força e pela melodia.
As letras voltaram assim a cruzar política, religião, guerra, frustração social, álcool, festa e relações pessoais, enquanto "Um Mundo Sem Paz" viria também a receber vídeo próprio. A edição física em CD foi trabalhada como edição de autor pela própria banda, prolongando a lógica independente que acompanha os Zurrapa desde os primeiros anos.
A apresentação aconteceu na Fora de Rebanho, em Viseu, com Voto Nulo na abertura e acabou por encher a sala, apesar das dúvidas iniciais da banda perante outros acontecimentos que decorriam na região no mesmo dia. No início de 2025, Manual de Incitação a uma Vida Boçal seria ainda o disco mais votado pelos leitores do Billy News numa votação dedicada aos lançamentos portugueses de 2024.
Nessa mesma fase, os Zurrapa chegaram também a ponderar um EP de versões. A ideia passou por cerca de seis músicas e levou a contactos com as respetivas bandas, mas apenas duas deram uma resposta positiva clara e o projeto acabou por ser abandonado. Na altura, os músicos diziam também não ter composições próprias antigas por gravar: aquilo que tinham escrito até então tinha sido aproveitado nos lançamentos.
Como os Zurrapa compõem as músicas e trabalham o som
O processo de composição dos Zurrapa segue habitualmente uma ordem bastante definida. António Fonseca explicou que, em cerca de 90% dos casos, a música aparece antes da letra. Primeiro surge uma base melódica, seguem-se as linhas de guitarra e baixo, o ritmo e os arranjos e só depois a letra ganha forma.
Escrever sobre uma música já construída permite-lhe encaixar melhor as sílabas e as palavras na melodia, evitando a sensação de uma letra forçada sobre uma composição que já existia. O próprio carácter instrumental acaba também por influenciar aquilo que é escrito: uma música mais agressiva pode empurrar naturalmente a letra para um registo igualmente mais duro.
Também a produção obedece a uma escolha consciente. Grande parte das referências dos músicos continua a vir das bandas que ouviam nos anos 80 e 90 e os Zurrapa nunca procuraram transformar os discos numa produção punk demasiado limpa ou moderna. A banda assume que poderia investir numa produção tecnicamente mais sofisticada, mas entende que ultrapassar determinado ponto faria o resultado deixar de soar a Zurrapa.
Essa opção ajuda a explicar uma discografia que muda sem romper com a base inicial. Há convidados, instrumentos inesperados, pequenas experiências e alterações no método de trabalho, mas continua a existir uma procura deliberada por um som direto, sem grandes floreados e próximo das referências que acompanharam os músicos durante décadas.
As letras dos Zurrapa entre crítica, provocação e humor
A crítica ao poder aparece logo em "Escravo do Poder" e atravessa sucessivamente títulos como (Des)Governo No País Das Maravilhas, O Triunfo dos Porcos ou "Governados Por Cabrões". Ao mesmo tempo, existe uma linha dedicada à cultura de bar, ao álcool e à festa, presente em temas como "Na Taberna do B.A.", "Putas, vinho e rock 'n' roll", "Afogado Em Cerveja", "Cucaracha Da Cerveja" ou "Beber P'ra Esquecer".
O humor negro e o absurdo completam esse universo através de títulos como "A Tua Cadela É Careca", "Rosa Grilo É Inocente", "Fui às Putas c'o teu Pai", "Pai Natal, O Putanheiro" ou "John Wayne Gacy". A linguagem é deliberadamente crua e frontal, numa escolha que acompanha a banda desde os primeiros anos e cruza sátira, exagero e comentário social sem abandonar o lado festivo.
Ao longo da discografia, os Zurrapa abordaram ainda guerra, religião, drogas, relações pessoais, tauromaquia, figuras criminais e histórias do quotidiano, quase sempre através de letras em português e de uma linguagem deliberadamente direta.
Dos concertos de 2025 ao novo disco dos Zurrapa
Em 2025, a banda manteve atividade em palco e integrou, a 3 de outubro, o 10.º Viseu RockFest. No final desse ano, "Pai Natal, O Putanheiro" voltou a surgir na compilação digital 25.12, editada pela ANTI-DEMOS-CRACIA, embora a música já fizesse parte de O Triunfo dos Porcos desde 2022.
Entretanto, os Zurrapa avançavam para novo material. Em março de 2026, Nuno Mendonça antecipava um disco de continuidade, sem uma tentativa de reinventar a banda, mas com algumas novidades. Entre elas estavam convidados e até dois solos de guitarra, um elemento pouco habitual no repertório dos Zurrapa.
A 29 de maio, no Rock dos Romanos, a banda já apresentou ao público "Vampiro Português" e "Encostado à Parede", dois temas que viriam a integrar o novo trabalho. Nesse mesmo concerto surgiu ainda "Rosalina Metaleira", uma música que não fazia parte dos seis registos anteriormente editados.
"Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha!"
Capa de Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha!, sétimo registo de estúdio dos Zurrapa, editado em 2026.
O novo trabalho chama-se Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha! e foi editado a 26 de setembro de 2026, data escolhida também para a apresentação na Fora de Rebanho, em Viseu, com Carne Pa Canhão na abertura.
O disco reúne 12 músicas em cerca de 31 minutos e representa um marco particular na discografia dos Zurrapa por ser o primeiro trabalho da banda editado também em vinil.
A contagem dos lançamentos merece alguma precisão. Os próprios Zurrapa apresentaram Na Taberna do B.A. e Zurrapa Som Sistema como EPs e em 2020, identificavam (Des)Governo No País Das Maravilhas como o primeiro álbum. Assim, Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha! é o sétimo registo de estúdio e o quinto longa-duração da banda.
O artwork é assinado por Victor "Hellsmith" Costa e o disco inclui várias participações. Hugo "Mosgo" Rebelo, primeiro vocalista dos Simbiose, participa em "Vampiro Português", Hugo Conim surge na guitarra em "Encostado à Parede" e Paulo "Seca Adegas" participa em "Ode Triunfal Ao Bagaço Em Dias de Sol (Fuga em Ré Bemol)".
Entre os títulos que já tinham sido revelados antes da edição encontram-se ainda "Os Cães Pisteiros Detectaram Odor a Cadáver Humano", "Que Fiz Eu (P'ra Merecer Isto)", "Ser Zurrapeiro" e "Eu Só Queria Ver A Assembleia a Arder".
Os Zurrapa em 2026 e a passagem pelo Força Bruta
Mais de nove anos depois da formação, António Fonseca, Nuno Mendonça e Pedro Sales continuam juntos e mantêm a base musical definida nos primeiros ensaios. Ao longo desse percurso passaram por dois EPs, cinco longas-durações, anos de atividade intensa em palco, uma pandemia que obrigou a alterar planos e métodos de trabalho e uma sucessão de lançamentos construídos maioritariamente fora das estruturas tradicionais da indústria.
Apesar de pequenas mudanças de processo, convidados ocasionais e novas experiências em estúdio, os Zurrapa mantiveram a preferência por músicas diretas, letras em português e uma relação muito próxima com o palco, onde continuam a testar parte do material antes de o fixarem definitivamente em disco.
É precisamente nesta fase que os Zurrapa chegam ao Força Bruta a 2 de outubro. A conversa vai regressar aos primeiros ensaios em Viseu, percorrer a discografia, as histórias de estúdio e de estrada e chegar a Mai$ Uma Mo€dinha... Mai$ Uma Voltinha!, o sétimo registo de estúdio de uma banda que continua, em 2026, com a mesma formação com que começou em 2017.
Onde ouvir e ver o Força Bruta em direto
6ª feira, das 20h às 23h
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- As entrevistas são também transmitidas em vídeo no Facebook do Força Bruta por volta das 21:30.
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